«O Elevador», primeiro capítulo

Lá vai ela, veloz na sua Vespa, exibindo-se rua fora, fingindo não reparar nos olhares que a seguem. Calções curtos, blusão de ganga desabotoado, a pele ligeiramente bronzeada, colhendo com secreto deleite os assobios e piropos que lhe atiram a cada paragem num semáforo. As luvas de condução amarelas, a bolsa com longas franjas a tiracolo, os óculos escuros exageradamente grandes, para observar pelo canto do olho quem a contempla, sem mover a cabeça um milímetro que seja, técnica apurada na adolescência, quando desfilava nos corredores da escola, provocando um misto de inveja e admiração nas raparigas e incontroláveis erecções nos rapazes.

Tempos leves esses, em que as únicas preocupações eram escolher pormenorizadamente a indumentária para o dia, não chumbar por faltas e convencer os pais de que era uma menina bem-comportada. Na altura, como para tantos adolescentes, estes eram assuntos de crucial importância, geridos ao mesmo tempo que as disputas sociais e dramas irresolúveis que tinham como palco o recreio da escola. O mundo era enorme, porém inalcançável até se atingir a maioridade; as amizades eram imprescindíveis, porém voláteis como o éter; a juventude parecia eterna, porém manchada pela ansiedade de chegar à idade adulta. E, no entanto, vistos a esta distância, poder-se-ia concluir que esses tempos tinham sido uma pétala de dente-de-leão a voejar devagarinho num campo aberto; um sonho bom, do qual não queremos despertar e ao qual, despertando, por mais que voltemos a fechar os olhos, nunca mais conseguimos regressar. Como é que, de repente, tinha chegado até ali? Por onde passou o tempo com tanta voracidade? Como se vai de adolescente despreocupada a adulta insatisfeita, cujos sonhos, eternamente adiados, parecem estar quase a expirar?

Lá vai ela, mordendo o lábio, como sempre faz ao embrenhar-se nos seus pensamentos, enquanto o ar quente de Verão lhe beija a pele e faz esvoaçar os cabelos cor de mel. A desejar ardentemente não ter de pensar. A desejar ardentemente conseguir travar a sucessão de frases que se formam aleatoriamente no seu cérebro, como ecos de diferentes «eus», todos a falarem ao mesmo tempo, atropelando-se, caóticos. «Amanhã tenho de desmarcar a Dona Lurdes, talvez consiga atendê-la terça-feira, não me posso esquecer de pôr as calças a arranjar, oh, que gato tão querido ali à janela, gostava tanto de ter um gato, e até dava para ter um gato lá em casa, o pior era se arranhasse o sofá, mas também, o que é que isso interessa, um sofá é apenas um sofá, punha uma manta para disfarçar o estrago e pronto, mas e os pêlos, teria de aspirar a casa mais vezes, olha que saia tão gira, tenho de usar saias mais vezes, se bem que na mota, walk on by, walk on by, foolish pride, hoje estou com esta música na cabeça, não sei porquê, não me lembro de tê-la ouvido, talvez tenha dado no filme de ontem, não sei, adormeci… o que é que a Rute queria dizer com aquilo, «tens de saber viver», parece que é parva, vou com o vestido roxo, é isso, adoro o vestido roxo, merda, não está passado a ferro, levo o azul, então, tenho de levantar dinheiro, está tudo parado ali à frente, olha que lindas flores, gosto tanto de flores, porque é que ele nunca me oferece flores, já comia qualquer coisa, que horas são, não posso chegar atrasada, não hoje, vou chegar atrasada, merda, pára, respira, daqui a cinco minutos estás em casa, o que são cinco minutos, olha a cidade ao entardecer, aproveita a viagem, voa, Sara, voa para longe, para lá da cidade, da terra, de ti!»

Sara acredita que andar de mota é o mais perto que alguma vez estará de voar. Isto porque tem a certeza de que, por muito aventureira que seja, nunca terá a coragem de se atirar de pára-quedas ou de pára-pente ou de qualquer outro meio que os humanos inventem para se assemelharem a um pássaro. Já lhe custa olhar para o passeio a partir da varanda do segundo andar, quanto mais atirar-se deliberadamente de alturas estonteantes. Mas ali, em cima da sua velha scooter, imagina que, em vez da roupa, tem penas coloridas a ondular por entre o vento.  Descreve «esses» no asfalto, imitando o vôo inconstante de uma pequena ave, enquanto sente ligeiras mudanças de temperaturas e de aromas a cada esquina dobrada. Jasmim, vinho, gasolina, caril. Os aromas que compõem aquela parte da cidade.

Aproxima-se finalmente de casa. Um prédio antigo de cinco andares numa rua pacata, salpicada de árvores. Tira o capacete com cuidado e abana os cabelos como se estivesse num anúncio de champô. Prende a mota com o cadeado ao candeeiro de rua e levanta o banco, de onde retira o saco do ginásio e uma garrafa de vodca, que precisa de pôr rapidamente no congelador para refrescar um bocadinho antes de saírem para o jantar. Não lhe apetece nada ir aturar a família dele esta noite. Preferia mil vezes ir dar uma volta de mota pela cidade ou assistir a uma sessão de cinema ao ar livre. Está uma noite tão boa… Ah, como são maravilhosas estas noites de Verão, longas e quentes, com sabor a férias mesmo quando se está a trabalhar, como se as horas se esticassem para lá das vinte e quatro que compõem cada dia. Mas não. Mais uma vez terá de fazer a última coisa que lhe apetece. Dizem que é mesmo assim uma vida a dois. Um conjunto de cedências, compromissos, sacrifícios… Porém, por vezes parecia-lhe que só ela cedia. Entra no prédio contrariada.

Perante a demora excepcional do elevador Sara suspira e, sem o mínimo de consciência do seu gesto, começa a bater impacientemente com o pé no chão de pedra. Quando as portas finalmente se abrem, depara-se com os vizinhos de cima carregados com malas, sacos e três filhos barulhentos empilhados no espaço exíguo daquela caixa que sobe e que desce pelas entranhas de betão. A razão da demora, portanto.

– Olá, boa tarde, querem ajuda? – pergunta Sara, disfarçando a irritação que a espera lhe provocou.

– Olá, Sara – responde o homem. – Não, obrigado, não é preciso ajuda. Já estamos habituados a esta logística.

– Mas vão de férias ou vão mudar de casa? – diz em tom de brincadeira, perante a quantidade de bagagem que vai saindo do elevador. Tem a sensação de estar a ver um daqueles concursos que davam na televisão, do tipo «quantas pessoas cabem num Mini».

– Férias… – suspira a mulher, afastando o cabelo do rosto com um sopro, enquanto tenta convencer o mais novo a sair do cimo da pilha de malas.

– Férias é como quem diz – troça o marido -, que isto com filhos é mais algo entre o recrutamento militar e a anarquia instalada.

– Pois, imagino – comenta Sara, estupefacta. Seria mesmo necessário levar tanta coisa para umas férias?

– Olha, podes dizer à Dona Ester para ligar para a manutenção do elevador?  – pergunta o homem.

– Está a fazer um barulho esquisito desde ontem – continua a mulher.

– E há bocado até parecia que ia parar – diz o homem.

– Eu ainda quis ir lá dizer-lhe – volta a mulher.

– Mas a esta hora ela está a jantar e a ver o telejornal e, já se sabe, não abre a porta a ninguém – conclui o homem.

– Sim, claro, amanhã de manhã, quando sair, eu aviso-a- responde Sara.

– Então vá, vemo-nos daqui a duas semanas – diz a mulher, que desistiu de tirar o miúdo de cima da mala, arrastando-a agora para fora do prédio com ele em cima, a fazer de conta que é um domador de dragões.

– Boa viagem. Aproveitem!

A pesada porta verde fecha-se, assim como a do elevador, e, nesse instante, Sara apercebe-se de que os vizinhos completam as frases um do outro, como se fossem um daqueles seres mitológicos de duas cabeças. Nunca tinha reparado em tal pormenor antes, mas agora parecia-lhe cómico. E, sobretudo, muito romântico. Era preciso ter uma enorme cumplicidade para conseguir adivinhar os humores e pensamentos do outro. Uma sintonia que Sara só conhecera no início de uma relação, quando a cada dia somos arrebatados pela descoberta da infinidade de coisas que temos em comum com alguém que acabámos de conhecer. Quando tudo o que o outro diz é engraçado, novo, inspirador. Quando temos a certeza, absoluta, inabalável, de que estamos perante a nossa alma gémea. Até ao dia em que deixa de o ser, pois até os gémeos viram costas um ao outro.

Ou seria triste? E se essa sincronia de pensamentos e acções fosse um sinal de que aquelas almas estavam sufocadas num lago pantanoso de onde não conseguiam escapar e onde, a cada tentativa desesperada de vir à tona, iam perdendo um pouco mais a sua individualidade? A veia romântica de Sara prefere acreditar na hipótese do amor absoluto, afastando o cinismo com um sorriso. Sorri também perante a perspectiva de estar duas semanas sem ouvir carrinhos a percorrer o soalho, lutas fratricidas e vozes de personagens de desenhos animados a partir das oito da manhã.

Põe a chave à porta, pendura o capacete no cabide de parede e o sorriso desfaz-se ao deparar-se com Alex a fazer zapping no sofá do pequeno estúdio, enquanto a loiça do pequeno-almoço continua empilhada no lava-loiças e a roupa por dobrar em cima da mesa de jantar. Sem vontade de dizer sequer boa tarde, Sara abre o frigorífico onde jaz, solitário, um último iogurte líquido, que bebe de uma só vez.

– Então, miúda? Já te ia ligar. Porque demoraste tanto? – pergunta ele, endireitando-se no sofá. – Não te esqueceste de que hoje o meu pai faz anos, pois não?

Sara murmura entredentes qualquer coisa imperceptível, colocando com brusquidão a garrafa de vodca na gaveta do congelador e a roupa do ginásio dentro da máquina. Alex levanta-se num pulo e dirige-se a ela para lhe dar um beijo. Mas Sara não se move, continuando a enfiar roupa na máquina com brusquidão.

– Deixa lá a roupa, olha que já são oito horas e vamos chegar atrasados.

– Mas já estás pronto?

– Há que tempos!

– Ai, sim? – diz Sara, com desdém, olhando-o nos olhos pela primeira vez desde que chegara – Então, isso quer dizer que as tuas amigas vêm cá hoje, é?

– Quais amigas?

– As fadas domésticas, que arrumam tudo enquanto nós não estamos em casa!

Alex ainda esboça um movimento de lábios, tentando que uma qualquer resposta se solte da garganta, mas depressa percebe que é melhor não dizer nada, até porque Sara já lhe virou costas e bateu com a porta do quarto. «Incrível! Nem um olá. Passa o dia inteiro fora de casa e, quando chega, está sempre maldisposta, sempre irritada», diz para si próprio, enquanto se atira à loiça suja, na esperança de que isso melhore o humor da namorada. Quando ela aparece, deslumbrante num vestido azul e lábios carmim, nem repara no esforço que ele fez para lhe agradar. São oito e meia quando saem finalmente de casa e entram no elevador.

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Respostas de 3 a “«O Elevador», primeiro capítulo”

  1. Adorei o primeiro capítulo. Tenho 79 anos e sou reformado. Gosto de ler e gostava de poder comprar os seus livros , principalmen te este que pela amostra deve ser emtusiasmante. Infelizmente os reformados (os que recebem 500€ como eu), não podem comprar livros. Tenho de me contentar em ler os antigos que tenho na minha biblioteca e os clássicos que descarrego na Net. Parabéns pela sua escrita corrida, desenvolta e moderna. Adorei. Continue sempre a escrever. (Ouvi a sua entrevista no João Gobern e na Margarida nos Encontros Imediatos e admiro-a sabendo que é mãe de 2 rebentos de 8 e 10 anos, e consegue escrever. Admirável.) Obrigado pela atenção se ler este meu desabafo. Desculpe.

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    1. Muito obrigada pela sua mensagem, Manuel. É muito triste que os livros sejam tão caros e as novidades raramente estejam nas bibliotecas públicas.

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  2. […] de autores pouco conhecidos não tenham qualquer hipótese.Para quem ainda não leu, aqui está o primeiro capítulo. Espero que gostem […]

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