Coisas que uma perimenopáusica descobre (e de que ninguém fala)

Quando lancei o meu livro de crónicas Coisas que uma mãe descobre (e de que ninguém fala), uma leitora na casa dos 50 disse-me que eu devia era escrever as coisas que uma mulher descobre na menopausa, porque aí sim, não há livros de auto-ajuda nem cursos que nos valham. Referiu especificamente a crónica «as hormonas são umas cabras», garantindo-me que o descontrole hormonal durante a gravidez e pós-parto não é nada quando comparado com o que nos espera na fase mais tardia da vida dos nossos ovários. Nunca me esqueci disso, mas faltava-me a experiência na pele. Pois eis-me agora, aos 47, a compreender perfeitamente o que me dizia e com vontade de ler esse livro que ainda não foi escrito.

Na verdade, tudo o que tem que ver com o corpo da mulher só agora, bem avançados que estamos no século XXI, começa a ser estudado e falado abertamente. Aprendemos na escola algumas coisas sobre as diferentes fases da vida reprodutora, porém, mesmo entre mulheres, não se fala muito sobre o que as mudanças no corpo fazem à alma. Somos ensinadas a aceitar e aguentar. Começa logo com a primeira menstruação.

Sabia por alto o que me esperava, mas quando deparei com o facto pela primeira vez, caí literalmente para o lado. Sim, no chão de pedra da casa de banho. Acordei com a minha avó a molhar-me a cara e a levar-me para casa, dando conselhos estranhos pelo caminho, como agora já não podes trepar às árvores, tens de ter sempre as pernas fechadas, agora és uma mulherzinha. E eu, com doze anos, a achar que aquilo era absurdo. A minha mãe explicou-me tudo: o que significava a menstruação, quantos dias por mês me esperariam, que era normal doer-me a cabeça e a barriga, mas não me falou da hipersensibilidade, da irritabilidade, da vontade insana de comer doces ou das mudanças na pele. Fui aprendendo mês a mês, aguentando tudo com um sorriso e um analgésico, porque, tal como nos ensinam nos anúncios dos tampões, não é o período que nos vai parar. Mentira. Há dias em que mal conseguimos sair da cama. Há dias em que só nos apetecer chorar. Há dias em que nos sentimos outra pessoa. Mais uma vez, o marketing e o patriarcado a funcionar contra a natureza feminina: 80% dos directores de marketing e criativos em agências de publicidade ainda são homens.

Mas adiante. A mesma falta de informação acontece com a menopausa. A história que nos contam é que, lá para os cinquentas, o período começa a escassear, começamos a ter uns afrontamentos, uns suores nocturnos e pronto, a menopausa chega e não há nada a fazer. Outra vez mentira. Não é assim tão simples. E, por isso mesmo, ainda que este texto não seja o tal livro, decidi deixar aqui uma pequena lista de coisas que tenho vindo a descobrir sobre esta fase da vida (e de que ninguém fala).

  1. Antes da menopausa existe a perimenopausa.

      A menopausa corresponde ao fim das menstruações espontâneas e pode ser confirmada após 12 meses consecutivos sem período menstrual, marcando o fim do período fértil. Porém, antes de entrar na menopausa, a mulher passa por um período de transição que pode durar até 10 anos e que se chama perimenopausa. Ou seja, sendo a média da menopausa os 52 anos, é possível entrar na perimenopausa aos 42. No meu caso, os sintomas começaram aos 44 e não têm sido meigos. Por isso, se andas a sentir-te estranha, continua a ler.

      2. Ainda menstrua? Então, não posso fazer nada.

        Os afrontamentos, suores nocturnos, insónias e secura vaginal, por exemplo, são frequentes quando se entra na menopausa. Mas também são sintomas da perimenopausa. Só que, quando chegamos a um ginecologista e dizemos isso, a pergunta típica é ainda menstrua? Então, não posso fazer nada. Realmente, durante a perimenopausa a mulher ainda está a ovular normalmente, quando muito com ciclos mais curtos ou irregulares, e até pode ter os níveis de estrogénio e progesterona nos limites aceitáveis. Aliás, pode engravidar como até então. No entanto, é possível que já apresente inúmeros outros sintomas que, sim, devem ser tratados, em alguns casos com terapia de substituição hormonal, por exemplo. Se o teu médico não quer ouvir, muda de médico. Procura um endocrinologista especializado. Há muito que se pode fazer.

        3. Não estás doida, estás perimenopáusica

          Os sintomas que me levaram a investigar sobre o assunto foram: despertares nocturnos (não insónia), pele extremamente seca (sempre foi mista), aumento de peso sem mudar a dieta ou o treino (falarei disto mais à frente), barriga inchada, irritabilidade constante (já não apenas durante a TPM), falta de paciência para toda a gente (idem), olhos secos, unhas quebradiças, comichões no corpo sem motivo aparente e esquecimentos frequentes. Divertido, não? Mas há mais! Eu ainda não tive, mas também é possível ter os tais afrontamentos, suores nocturnos, alterações vaginais, diminuição da libido, perda urinária, infecções urinárias, queda de cabelo, depressão, ansiedade, dificuldade de concentração, dificuldade em lidar com o stress, falta de energia, mais suor, mais cansaço, dores articulares, dores musculares, dormências, palpitações, tonturas, mudanças no paladar ou olfato e ainda alterações no trânsito intestinal. Que tal este cardápio? Se tens mais de quarenta anos e pelo menos três destes sintomas sem motivo aparente, é muito provável que tenhas entrado na perimenopausa. Bem-vinda!

          4. Até o ar me engorda!

          Esta é uma expressão que eu ouvia frequentemente nas conversas entre a minha mãe e as amigas, quando elas tinham quarenta e tal anos. Eu, que sempre fiz desporto e tive cuidado com a alimentação, achava que elas eram exageradas e talvez um pouco preguiçosas. Nenhuma delas andava no ginásio e, nas jantaradas lá em casa, nenhuma se coibia do pão com queijo ou do vinho. Corta para trinta anos depois. Sim, amigas, parece que até o ar nos engorda e, mesmo sem ter mudado nada na alimentação, mesmo continuando a fazer desporto regularmente, a roupa está-me toda apertada e a balança passou dos 49 para os 52 literalmente de um dia para o outro. E não é só uma questão do peso em si. Até pode não haver uma grande variação, mas o corpo muda, e muito. Mesmo que as calças ainda apertem e o biquíni ainda sirva, já não nos assenta bem. Como se não bastasse a flacidez expectável da idade, agora temos barriga de grávida, braços de trolha e tornozelos de suíno. Qualquer coisa muda na forma como a gordura corporal se distribui e o metabolismo entra em modo caracol. Contudo, por muito que te sintas triste em frente do espelho, lembra-te: não te desleixaste, nem estás a fazer nada de errado. As tuas hormonas é que deixaram de colaborar.

          5. Não fiques calada

          O pior que podes fazer nesta altura é guardar tudo para ti. Eu sei que não queres estar sempre a falar no mesmo e que até podes sentir-te fútil por te focares na imagem, numa altura em que só se fala de autoaceitação, beleza interior, namasté, e tal. Mas a verdade é que estás a passar por uma mudança (mais uma!) super natural e, a não ser que sejas uma daquelas celebridades que têm PT, nutricionista , cozinheiro, maquilhador, stylist, massagista e guru espiritual, vai ser difícil passar por isto sozinha. Deves falar abertamente sobre o assunto, procurar ajuda e mais informação. Vais ver que, assim que começares, as tuas amigas também vão desfiar a sua lista de sintomas e todas nós vamos aprender a normalizar esta fase da vida e a aceitar as mudanças exteriores e interiores. Fala também em casa. Maridos, filhos, companheiros, todos devem estar cientes de que estás a viver uma enorme transição hormonal que se vai reflectir no teu humor, no teu corpo e nas tuas escolhas. O meu marido, como sempre, tem sido o meu porto de abrigo. Acho que ele sabe mais sobre a perimenopausa do que a  maioria das mulheres, o que o ajuda a perceber que há dias em que não é ele que me irrita, é toda a gente! Uns dias mais do que outros.

          6. Celebra a mudança

          Nas culturas orientais e em muitas comunidades indígenas, a menopausa é celebrada. Por exemplo, a palavra japonesa para menopausa é konenki, que significa renovação e energia. Nestas culturas, esta fase da vida é vista como uma transição para a sabedoria e a liderança, uma idade em que as mulheres ganham maior respeito e influência, podendo mesmo ser consideradas guias espirituais. Só nas culturas ocidentais, em que as pessoas são vistas como números e a produtividade se sobrepõe ao bem-estar, é que o facto de uma mulher já não ser fértil, jovem e esbelta é visto como um problema. E aqui, tenho de chamar a minha personagem mais icónica, a Helena. Quando achares que estás velha e a sociedade te disser que o teu lugar é na sombra, sê uma Helena – aproveita a vida como se fosses morrer amanhã. Celebra a mudança e o facto de estares viva e saudável e a experienciar algo único que te transformará na mulher que sempre sonhaste ser.

          Para terminar, deixo aqui algumas páginas que sigo sobre o assunto e que me têm ajudado a compreender e superar esta fase. Pode ser tudo normal, mas é importante termos uma ideia de como melhorar os sintomas e atravessar a perimenopausa com saúde e boa disposição. Espero que sejam úteis.

          https://thepauselife.com

          https://www.instagram.com/she____talks

          https://www.instagram.com/perimenopause.nutritionist

          https://www.instagram.com/sweatfitnessgirl

          A t-shirt é da minha autoria e está à venda no meu site:

          https://www.not-yet-famous.net/shop/everyone-woman-56?attribute_values=1