Adoptei um cão. E agora?

Adoptei um cão há alguns meses. Um bebé, bem pequenino, a quem tive (e tenho) de ensinar a maior parte das coisas, porque, ao contrário dos gatos, os cães não chegam às nossas casas ensinados, nem se lavam sozinhos. E sim, é um processo muito difícil, sobretudo com um marido constantemente a apontar-me o dedo porque não queria o cão, e dois filhos adolescentes que só querem o cão para a parte dos mimos.

Para quem não sabe, os cães não podem ir à rua até terem todas as vacinas iniciais, o que só acontece por volta dos quatro meses e meio. Ou seja, nos primeiros dois meses em casa, para quem os vai buscar em bebés, é preciso muita paciência para ensinar, por exemplo, a usar os resguardos em vez do chão para as necessidades. Quando essa parte já está quase aprendida, começam a ir à rua, o que pode ser extremamente confuso. Coitados dos animais: primeiro batemos palmas por fazerem xixi no resguardo, depois batemos palmas porque fazem na rua, devem julgar que somos doidos. É normal que se enganem e resta-nos ser pacientes e persistentes.

Mas há mais. Também é preciso ensinar quais os lugares proibidos e permitidos (sofás, zonas da casa, camas), retirar sapatos da sua vista, ter atenção aos móveis que eles podem roer, treinar comandos básicos como senta, fica, pára, e por aí fora. Depois, há ainda que ter disponibilidade financeira, tempo para os passeios diários, escolher restaurantes com esplanada, praias não concessionadas, e aspirar o carro quase todas as semanas.

Percebo, por isso, que muita gente se arrependa de ter adoptado um cão ao fim de alguns meses. Percebo que, mesmo ao fim de alguns anos com o animal, as circunstâncias de vida possam mudar e ele já não tenha lugar na estrutura familiar. O primeiro ano de um cão numa nova casa é, efectivamente, muito exigente, e os seguintes implicam compromisso. Agora, o que não percebo é que ainda haja quem, ao fim de meia dúzia de meses ou anos, os abandone no meio da rua.

Num curtíssimo espaço de tempo soube de duas histórias de abandono aqui em Lisboa. A de um cão de oito meses, registado no bairro da Misericórdia, com microchip e tudo, encontrado a vaguear na Encarnação. O telefone associado ao microchip estava desactivado. Continua em casa de quem o encontrou. A de outro que foi abandonado no alojamento local que esteve alugado a um casal de estrangeiros durante dois meses. A equipa de limpeza só foi ao alojamento três ou quatro dias depois do check-out, encontrando o espaço imundo e o cão faminto.

Malta, o abandono de animais é crime, sabiam? Está no artigo 388º do Código Penal «Quem, tendo o dever de guardar, vigiar ou assistir animal de companhia, o abandonar, pondo desse modo em perigo a sua alimentação e a prestação de cuidados que lhe são devidos, é punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias.» Mas mais do que crime, é de uma cobardia imensa. Há abrigos, há associações, há várias alternativas. Será que estas pessoas não recorrem a estes sítios por vergonha? Será para elas mais vergonhoso admitir que já não querem o animal, ou já não lhes apetece ter trabalho, do que deixá-lo no meio da rua?

Nesta época de férias, em que casos destes abundam, peço-vos: não abandonem os animais e denunciem quem o faz. Deixo-vos alguns contactos úteis e o cão encontrado na Encarnação, caso alguém queira adoptá-lo. Chama-se Smokly e é muito dócil.

https://www.adopta-me.org/orgs.php?area_id=1