Alfama morreu

Alfama, seis e meia de uma tarde de sábado do início de Junho.

As esplanadas do Largo do Chafariz de Dentro estão despidas como num dia de Inverno. Muitos restaurantes têm as portas fechadas, talvez por ser ainda cedo, talvez por terem encerrado para sempre, e no centro não há palco nem barraquinhas com senhoras a venderem manjericos. Também não se vislumbra a carrinha das farturas e o ar não está azulado. Inspiro fundo, sentindo o cheiro do rio nas minhas costas, mas nem uma breve nota de sardinhas.

Com o coração apertado, subo a rua dos Remédios onde todas as lojas estão fechadas e viro para a Calçadinha de Santo Estevão à espera de ver as primeiras mesas do Páteo 13 serem invadidas por grupos de portugueses ávidos em garantir um lugar e estrangeiros de olhar fascinado por terem ido parar àquele lugar pitoresco, abraçado por uma enorme árvore enfeitada com luzinhas e festões coloridos. Porém, não está ninguém para além dos empregados e o lume ainda nem sequer foi aceso. Imagino o Sr. Carlos a sorrir-me, mas engulo a saudade e sigo em frente. Tem de haver um lugar onde haja alguma alegria.

Olho para cima, mas o céu não está rasgado por fiadas de bandeirolas. As janelas não estão enfeitadas e não há altares ao nosso santo. À excepção de duas senhoras que continuam com a porta de casa aberta, a tentarem vender ginjinha, e das mercearias de indianos, não há comércio. No Largo de São Miguel, a Baiuca está às moscas. Sento-me numa mesa e só meia hora depois alguém se senta na mesa ao lado. Um casal de estrangeiros. Imagino o que estão a pensar. “Isto deve ser muito giro, quando tem pessoas”.

São quase oito horas e apetece-me sardinhas, mas sinto que me enganei no bairro. Estamos em Junho e quase não as há em Alfama. Vou andando pelas ruelas desertas e decido-me pela Morgadinha. Os dois empregados parados à porta ficam felizes por ver a primeira cliente. Escolho sentar-me no pátio, mais uma vez vazio. As sardinhas não são más, o pão e as azeitonas trazem algum conforto.

No caminho de volta para o carro, o cenário pouco mudou. Cruzei-me com dois casais de estrangeiros com mochilas às costas e GPS na mão e com um grupo de rapazes portugueses. A esplanada do Largo continua desocupada. Em lado nenhum se ouve o Fado. Aliás, não se ouve nada.  Dois taxistas conversam fora das viaturas, esperando em vão por clientes. São dez da noite.

Sem as festas e sem os turistas, Alfama é um lugar morto e esta pandemia apenas veio revelar o corpo, que estava há anos escondido por libras e dólares e euros de uma Europa rica à qual pertencemos quase por engano. Os mais velhos foram desaparecendo, mas os seus descendentes não têm ali lugar. Foram expulsos das suas casas pequenas e degradadas pelas rendas exorbitantes ou novos contratos selvagens, casas essas que são reabilitadas para os estrangeiros em forma de alojamento local ou segunda habitação. Tal como no resto do país, para agradar a quem vem de fora, estamos a matar aquilo que eles procuram. O típico, o castiço, o genuíno, o que não se pode fabricar numa qualquer fábrica chinesa, como os souvenirs que se vendem nas poucas lojas que se mantêm abertas, porque já nem o artesanato é verdadeiro.

Em Alfama não há crianças a brincarem na rua, velhos a fumarem à porta das tabernas, mulheres a conversarem de uma janela para a outra. Não há mercearias com gaiolas à porta, nem senhoras de bata a lavar o passeio, nem roupa estendida nas fachadas, nem cães vadios de olhos doces cuidados por toda a vizinhança. Em Alfama ninguém se conhece. E quando aquelas duas velhinhas resistentes partirem, não vai ser um francês que vai abrir a sua janela, estender o “napron” no parapeito e apregoar “Ó filha, vai uma ginjinha?”. E aí, com que voz choraremos o nosso triste fado?

“Fechada em seu desencanto
Alfama cheira a saudade

Alfama não cheira a fado
Cheira a povo, a solidão
Cheira a silêncio magoado
Sabe a tristeza com pão”


Ary dos Santos

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