A luta continua

No outro dia uma amiga disse-me que não é feminista porque não se sente discriminada em relação aos homens. Foi dos maiores disparates que ouvi nos últimos tempos, não por ela não se sentir discriminada, isso acho óptimo, mas por achar que isso é uma razão válida para se afastar de uma das lutas mais importantes do nosso século. Já escrevi sobre o que é feminismo e a importância de todos o defendermos diversas vezes e não me vou repetir (se quiserem podem reler aqui ou aqui). Quero apenas aproveitar este dia simbólico para explicar à minha amiga e a outras pessoas que pensam como ela que não precisamos de sentir uma coisa na pele para saber que existe, que está errada e que tem de ser combatida.

Não preciso de ser preta para ser contra o racismo, não preciso de passar fome para saber o que é a pobreza, não preciso de estar numa cadeira de rodas para perceber as dificuldades que os deficientes físicos têm no dia-a-dia, não preciso de levar uma sova do meu marido para começar a defender quem é vítima de violência doméstica. Só preciso de estar atenta ao mundo que me rodeia, ter empatia, colocar-me na pele do outro e tentar contribuir para a mudança.

Pode ser através de um simples texto como este, que poderá ser lido por algumas dezenas de pessoas, pode ser alertando amigos para uma determinada questão, pode ser escrevendo uma carta, assinando uma petição online, doando dinheiro, fazendo voluntariado, comprando um produto cujas receitas revertem para alguma causa. Pode ser fazendo apenas uma destas coisas, ou todas ou mesmo nenhuma, por incapacidade, falta de tempo ou por haver outras preocupações mais prementes. Desde que mantendo a noção de que os problemas, independentemente de os sentirmos ou não na pele, existem.

Para quem não tem noção, e cada vez há mais gente sem noção por aí, deixo alguns títulos dos jornais deste fim-de-semana.

«COVID19 – MULHERES AFETADAS DUPLAMENTE: NO EMPREGO E EM CASA Quem mais perdeu empregos e ficou em casa para cuidar foram as mulheres, mostra estudo com países da UE. Portugal no topo.»

«AS MULHERES GANHAM EM MÉDIA, MENOS QUE OS HOMENS No caso português, o fosso salarial está entre os 15 e os 23%»

«SER DESPORTISTA EM PORTUGAL AINDA É MAIS DIFÍCIL PARA AS MULHERES Os números não enganam: em Portugal, as mulheres representam apenas um terço dos inscritos em federações com desportos olímpicos.»

«EM PORTUGAL, APENAS 36% DOS GESTORES SÃO MULHERES Em nenhum Estado-membro da UE as mulheres chegam a ocupar metade dos cargos de gestão, segundo os dados do Eurostat referentes ao terceiro trimestre de 2020.»

«MULHERES TRABALHAM MAIS 1 HORA E 13 MINUTOS QUE OS HOMENS, APONTA ESTUDO De acordo com a CGTP, 78% das mulheres fazem pelo menos uma hora de trabalho doméstico por dia, contra 19% dos homens. Estudo conclui que existe uma grande distância na partilha de responsabilidades.»

Querida amiga, no dia em que estas notícias deixarem de ser notícia, podemos deixar o feminismo de lado. Até lá, espero que compreendas por que é que a luta tem de continuar, mesmo entre as que têm o privilégio de nunca se terem sentido discriminadas.

2 thoughts on “A luta continua

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