Preciso de ir

Hoje apetecia-me escrever algo alegre, algo que ajudasse quem me lê a sorrir. Mas não consigo. O meu humor está como o tempo: instável, nublado, por vezes um bocadinho azul, mas maioritariamente cinzento.

Levamos quase um ano disto. Deste medo, desta angústia, de planos e abraços adiados, de más notícias e privações. Tirando aquele período entre Junho e Setembro, em que andámos mais ou menos livres, ainda que mascarados, a vida tem sido vivida entre quatro paredes e através de um ecrã. Os dias sempre iguais, a vista sempre a mesma, a rotina instalada com o propósito de ocupar o tempo antes de virarmos a folha ao calendário.

Ontem vesti-me e maquilhei-me como se fosse sair, só para sentir que ainda sou eu. Há uma enorme tentação para ficar de pijama, como se ao estar sempre de pijama, um dia, ao olhar para trás, os meses se transformassem em horas e isto não tivesse passado de um breve interlúdio, duas ou três semanas no máximo. E pensar que há quem deseje a pena de morte para castigar um condenado. Haverá pena pior do que viver cada dia como se fosse sempre o mesmo dia? Um dia que não acaba, um eterno minuto da marmota.

Para mim o primeiro confinamento foi mais fácil. Tudo era novidade, especialmente o sermos obrigados a parar, o termos tempo para estar em família, fazer bolos, jogar jogos de tabuleiro, arrumar gavetas, pendurar quadros, ver aquelas séries de que toda a gente fala. Agora não queremos mais bolos, nem jogos, as gavetas já foram arrumadas e os quadros pendurados, as séries foram vistas e as que estão por ver, já não nos dizem nada porque falta aquela pausa para o café ou aquele almoço com o amigo que nos fala dela entusiasticamente.

Há menos videochamadas porque ninguém tem nada para contar e ninguém quer mostrar que isto nos está a afectar mais do que esperávamos.

Todas aquelas frases que nos motivavam no dia-a-dia deixaram de fazer sentido. Vive o momento, aproveita cada segundo, o que interessa é o agora. Mas que momento? Como se vive sem poder caminhar na praia, sem observar as crianças a brincarem num jardim, sem beber um copo ao final do dia, sem entrar num museu, sem ir a um concerto, sem ler um livro numa esplanada? Como se vive sem sair do mesmo lugar? Sem idas e voltas? Sem viagens?

A minha filha ontem disse-me que tem saudades de andar de metro. Até as crianças sentem falta de ir.

ir v.intr 1 passar de um lugar a outro; deslocar-se; andar; circular 2 caminhar para lá; dirigir-se 3 estar presente; comparecer 4 ocupar um espaço com um limite determinado; conduzir; marcar; atingir 5 haver de distância, de diferença; distar 6 ter como destino 7 evoluir; progredir 8 estar prestes 9 decorrer, suceder 10 funcionar 11 passar (bem ou mal) de saúde 12 convir 13 condizer 14 estar a fazer-se; estar a ser resolvido 15 seguir; continuar 16 levar 17 passar de um estado a outro 18 acontecer.

Preciso de ir. De passear, deambular, calcorrear, percorrer as ruas da cidade, longe da zona de residência, livre de passeios higiénicos. Fazer quilómetros. Ver outras paisagens. Precisamos todos. Já falta pouco. Tem de faltar pouco. Vamos acreditar.

3 thoughts on “Preciso de ir

  1. Andre Kelly Breda diz:

    Saír um bocado à sucapa é o novo cigarrinho de fazer rir, é melhor quando partilhas, não ages própriamente às escondidas, mesmo estando a fazer algo que supostamente não devias, simplesmente tentas não levantar grandes ondas. Instant high!

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  2. Marta diz:

    Olá! Identifiquei-me muito com o texto, quem já não se sentiu assim, nem que fosse um pouco? Pergunto-me se podemos encontrar formas de viver mais, sentir-nos vivos e com entusiasmo, sem sair?
    No entanto, para mim, sair também perdeu a graça. Só pensar em máscaras e desinfetantes e que não posso tomar um café demorado a ler um jornal ou um livro no café, sem preocupações, ou admirar a natureza sem pressas num parque… isso deixa-me sem vontade até de sair.
    Gostei muito e força! 🙂

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