Quarentena dia 12: teletrabalho ou assistência à família?

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O Governo decretou o teletrabalho obrigatório para todas as funções em que se justifique. Acho óptimo. Aliás, hoje em dia, a maioria das profissões que se exercem num escritório podem perfeitamente ser exercidas a partir de casa, desde que haja boa vontade e uma boa ligação à internet, pelo que o teletrabalho devia ser uma opção sempre.

Quem não tem filhos está a descobrir um admirável mundo novo que inclui ficar de pijama até tarde, liberdade total de gestão do tempo e não ter de aturar o barulho e as distrações de um open-space moderno. Mas quem tem filhos, não está a achar graça nenhuma. É que se de um lado temos as nossas obrigações laborais, do outro lado temos escolas fechadas e criançada com muita energia. E muita fome. E muita necessidade de chamar «Mamã» duzentas vezes por dia mesmo sabendo que estamos na divisão ao lado.

A coisa piora à medida que a idade da criança avança, uma vez que as escolas, não querendo dar-se por vencidas pelo COVID-19 e procurando terminar os programas propostos, têm inundado as caixas de correio dos pais com mil e uma fichas e materiais de estudo. Há colégios que estão a enviar seis horas de actividades por dia. Isso mesmo: por dia! Segundo os professores, é a carga horária que os petizes teriam na escola. Mas senhores professores eles NÃO estão na escola! E os pais, que estão em teletrabalho, cumprindo as suas oito horas diárias, não têm outras seis horas para fazerem de professores, ok? Ou alguém tem a ilusão de que miúdos com menos de 13 anos conseguem fazer todas as tarefas propostas sem os pais ao lado? Mais: estar de quarentena, voluntária ou obrigatória, não é o mesmo que estar na escola, com colegas, com recreios, com professores disponíveis para tirar dúvidas. O afastamento social, não é só difícil para nós, adultos. Também as crianças têm necessidade de estar com os amigos, de testarem a sua autonomia longe dos pais. Logo, a motivação é pouca, logo, a resistência aumenta, bem como a desculpa “a professora não ensinou isso, por isso ou explicas-me tu ou não faço”.

Portanto, o panorama actual apresenta-nos milhares de famílias a tentar gerir as birras, as fomes, as obrigações académicas e a actividade física diária dos filhos, ao mesmo tempo que têm de manter a casa habitável, a roupa lavada , as (várias!) refeições na mesa e trabalhar à distância. Como resultado, os pais sozinhos estão a enlouquecer; os pais em que ambos estão em teletrabalho estão a enlouquecer e à beira do divórcio; e os casais em que um está em teletrabalho e o outro desocupado (porque tinha um negócio próprio que se viu obrigado a fechar, por exemplo) também estão a enlouquecer e à beira do divórcio, porque o que trabalha age como se continuasse no escritório e o outro, além da frustração de ver o seu negócio fechado ainda atura os putos o dia todo sozinho.

Então, para evitar que os pais deste país invadam as urgências dos hospitais sem máscaras e sem luvas a ver se o bicho lhes pega, só para terem 15 dias de isolamento total num quartinho qualquer, sugiro que TODOS se decidam: ou há teletrabalho ou há miúdos em casa. As duas coisas é que não dá.

E todos são:

– as empresas, que devem ser mais compreensivas com quem tem os filhos em casa, sob pena de em breve ter pessoas em quarentena e burnout;

– as escolas, que devem parar de agir como se todos os pais pudessem ser professores;

– o governo, que devia ter vergonha por não permitir a assistência à família se o outro progenitor já está tele-trabalho, quando devia ser exactamente ao contrário – se um está em tele-trabalho e as escolas estão fechadas, o outro progenitor tem mesmo de estar em assistência à família;

– e outra vez o governo, que devia começar já a pensar como é que os pais em tele-trabalho vão dar os conteúdos do terceiro período aos filhos, uma vez que as escolas com certeza não abrirão antes de junho, mas há quem tenha exames nacionais para fazer.

Bem sei que estamos todos a aprender e ninguém tem as respostas certas para uma situação como esta. Mas quem está no governo está porque quis muito. Agora que a situação é grave mostrem a vossa competência. Parem com as entrevistas em que falam e não dizem nada e comprometam-se. Larguem as politiquices e a preocupação com as mossas que certas medidas poderão ter na vossa imagem e resolvam. O país vai entrar outra vez em recessão? Provavelmente. Mas para se levantar de novo vai precisar das pessoas. Pessoas em perfeita sanidade mental.

Até lá, o meu abraço solidário a todos os pais que estão a ficar exaustos ao fim da primeira semana sem aulas.

 

 

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