Ter ou não ter, eis a questão

5e013e48ef03c.imageNo outro dia, li um artigo que dizia que, com base em estudos feitos em países onde o isolamento social começou mais cedo do que cá, a partir da terceira semana de confinamento surgia a tristeza. No entanto, a tristeza é uma das coisas que estou mais longe de sentir. Sobretudo porque não tenho tido tempo para ficar de olhos presos na janela a ter pena de mim própria e de todos os planos que tinha para 2020 e que agora serão forçosamente adiados.

Como não tens tempo? Então o que fazes todo o dia em casa, perguntam vocês. Tenho filhos, respondo eu. Tenho dois filhos… É que há duas vivências deste isolamento domiciliário e são completamente diferentes uma da outra. A de quem tem filhos e a de quem não tem.

Vejamos por momentos do dia:

  • Despertar. Para quem não tem filhos o despertar acontece naturalmente ou, quando muito, dez minutos antes de uma qualquer videochamada de trabalho. Para quem os tem, acontece com dois seres enérgicos e excitados com essa coisa incrível que é um novo dia, a gritar “mamã” enquanto abrem a porta do quarto com estrondo e saltam para cima de nós.

  • Pequeno-almoço. Para quem não tem filhos, é um momento calmo, que pode ser acompanhado de uma breve olhada pelos jornais ao som da nossa banda sonora preferida. Para quem os tem, acontece mais ou menos duas horas depois de acordarmos e de termos obrigado, através de chantagens várias, os pequenos seres a fazerem a higiene matinal e a dizerem o que querem comer, que geralmente é nada, mas não vale ir já para a frente da televisão sem nada no estômago, olha que a televisão não foge e temos de manter rotinas saudáveis!

  • Manhã. Quem não tem filhos pode passar a manhã a trabalhar remotamente ou dedicar-se a uma actividade de que goste (tricô, leitura, pendurar os quadros que estão encostados desde que se mudaram). Quem tem filhos passa a manhã a fazer camas, estender roupa, dobrar roupa, arrumar a casa, limpar o chão, impedir que os miúdos invadam a cozinha como Gremlins, evitar um fratricídio e, com sorte, ter meia hora para qualquer coisa como fazer exercício ou folhear uma revista até olhar para o relógio e ver que já são horas de ir fazer o almoço.

  • Tarde. Quem não tem filhos, não trabalha nem tem um hobby pode sentir agora algum aborrecimento, admito. Talvez a tal tristeza. Mas quem os tem, começa a tarde a limpar a cozinha, depois leva as crianças para um breve passeio na rua para ver se se mexem e gastam as pilhas, chega a casa, prepara-lhes um lanche, que o passeio abriu-lhes o apetite, segue-se uma actividade lúdica ou escolar, cuja nossa presença é sempre imprescindível, limpar o chão, impedir que invadam a cozinha como Gremlins, preparar-lhes outro lanche, dar-lhes um aparelho electrónico para que nos larguem um bocadinho, tentar (escolher apenas um) falar ao telefone com alguém, pintar as unhas, ler, ficar na cama em posição fetal ignorando os gritos que se espalham pela casa, evitar um fratricídio, limpar o chão, impedir que invadam a cozinha como Gremlins, porque “já são quase horas de jantar depois deixas tudo no prato!”, ir preparar o jantar.

  • Noite. Quem não tem filhos pode aproveitar para ver televisão, uma série, um filme, fazer videochamadas, sei lá. Quem tem filhos, arruma a cozinha, limpa o chão, senta-se no sofá com eles a ver o que eles decidiram que vão ver e que se resume a desenhos animados (alguns muito parvos), convencê-los a ir para a cama sem comer mais nada, gritar setenta vezes para lavarem os dentes, dizer até amanhã, quase sentar no sofá mas voltar ao quarto para mais um beijinho, quase sentar no sofá mas voltar ao quarto para levar um copo de água, quase sentar no sofá mas voltar ao quarto para abrir mais a porta porque está muito escuro, quase sentar no sofá mas voltar ao quarto para nos dizerem que a televisão está muito alta e pedir só mais um beijinho, sentar finalmente no sofá, sentir o cérebro a desligar, já é muito tarde para começar a ver um filme, vamos antes ver uma série qualquer, cujos episódios não tenham mais de meia hora.

  • Adormecer. Quem não tem filhos pode sentir alguma ansiedade e até insónias devido à situação, ao medo de perder o emprego ou, pior, alguém querido, e ainda devido ao facto de ninguém saber quando se vai regressar à normalidade ou se essa normalidade será a que tínhamos há um mês. Sonha com uma churrascada com os amigos ou um dia inteiro na praia. Quem tem filhos, também pensa nessas coisas todas, mas o cérebro desliga-se completamente ao fim de três minutos. Sonha com a reabertura das escolas.

Era só isto. Até à próxima.

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