Ninguém é normal

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@Alexa Epstein

Há cerca de nove meses fui pela primeira vez a um psicólogo. Andava ansiosa, irritada, com falta de paciência e distúrbios de sono. Tentei convencer-me de que era uma fase, causada pela recente remoção da tiroide e consequentes desequilíbrios hormonais, e que ia conseguir resolver a coisa sozinha, com mais yoga, meditação e chá de camomila. Chegava mesmo a ficar furiosa quando o meu marido me dizia que eu devia falar com alguém.

Na primavera de 2019, além dos sintomas acima, comecei a andar constantemente doente: ora era a rinite, ora era o refluxo, ora era uma amigdalite, mas curiosamente, não disse a mim própria que era uma fase e não tentei curar-me sozinha. Fui ao médico de família, ao otorrinolaringologista e ao gastroenterologista sem qualquer hesitação. Depois de verem o meu histórico, o meu estilo de vida, os meus hábitos alimentares, aparentemente saudáveis, perguntei se havia alguma razão para estar sempre doente. E a resposta foi unânime: quando estamos mal emocionalmente, as defesas baixam e a saúde física ressente-se, alguma vez considerou um psicólogo? À primeira não liguei, mas quando o terceiro médico me disse a mesma coisa, caiu-me a ficha. O meu marido tinha razão! Talvez me fizesse bem falar com alguém.

Deixem-me que vos diga que foi a melhor decisão que tomei na vida e só lamento não ter começado mais cedo. A experiência tem sido óptima, mesmo nas sessões em que choro como uma Madalena arrependida, e tem-me dado novas ferramentas para enfrentar as coisas que me incomodam. Sinto-me cada vez mais positiva e nunca mais fiquei doente.

Bom, mas não estou aqui a expor a minha vida privada só porque não tenho mais nada sobre o que escrever. Estou a fazê-lo porque quanto mais retiro das sessões, mais me pergunto se ir a um psicólogo, a dada altura da vida, não deveria ser um mandatório. Se vamos ao médico de família fazer um check-up ao corpo, porque é que não vamos ao psicólogo fazer um check-up às emoções? Se vamos ao ortopedista porque nos dói o joelho, porque não vamos ao psicólogo quando nos dói a alma? E a resposta é: por preconceito.

Numa sociedade em que passamos cada vez menos tempo a conversar olhos nos olhos, é difícil acreditar que os outros sintam o que nós sentimos. Numa sociedade em que só partilhamos as coisas boas e bonitas das nossas vidas, é difícil admitirmos que temos problemas. Numa sociedade em que todos temos de ser determinados, auto-confiantes, melhores que os outros, é embaraçoso mostrar o nosso lado fraco. E por isso entramos em negação, varremos tudo para debaixo do tapete e fazemos o que for possível para parecermos normais.

As pessoas normais não vão ao psicólogo porque têm trabalhos normais e famílias normais e vidas completamente normais. As pessoas normais sabem resolver todos os seus problemas normalmente, e são tão normais que não têm fraquezas, nem ansiedades, nem dúvidas existenciais, nem medos. As pessoas normais, quando estão em baixo, vão dar um passeio pela praia, vão beber uns copos, vão falar com um amigo e a coisa passa. Quando vão a um psicólogo é porque estão mesmo no fim da linha. «Ela foi ao psicólogo e tudo!», sendo o «e tudo» indicador da gravidade da situação.

E é isto que nos está a matar. O preconceito em falar da saúde mental, como se todas as partes do corpo pudessem adoecer, menos a cabeça. E é isto que faz com que fiquemos surpreendidos quando ouvimos dizer que fulano tal, que era uma pessoa normal, teve um esgotamento ou suicidou-se ou tornou-se alcoólico ou disparou uma arma sobre uma multidão.

Quanto mais depressa todos, enquanto sociedade, nos apercebermos de que não há pessoas normais, mais fácil será falar das emoções sem qualquer constrangimento. Mais fácil admitir ao colega do lado que vamos sair mais cedo para ir ao psicólogo. Mais fácil será pedir ajuda e apercebermo-nos de quem precisa de ser ajudado. Porque ninguém é normal e não há nenhum problema nisso.

5 thoughts on “Ninguém é normal

  1. Carlos Vaz diz:

    Bem verdade e bem a propósito, como sempre! E, “a propósito”, os meus parabéns também pelas últimas publicações.
    Tivera eu consultado um psicólogo atempadamente, e talvez isso me tivesse poupado muitos anos de “bloqueios”. Contudo, mais tarde, cheguei a ter algumas sessões com dois deles e não correu lá muito bem. Tive a sensação constante de que fingiam que acreditavam que eu estava a progredir e que queriam despachar-me devido à minha “falta de colaboração”. Mas quando o paciente não colabora, não era suposto tentarem descobrir o motivo dessa falta de colaboração?… Também a propósito de “normal”: terá sido este comportamento por parte dos meus ex terapeutas normal, ou ter-me-ão calhado dois incompetentes?… Acho que também é necessário trazer isto à superfície, para desmistificar a função e seriedade dos psicólogos e para que possamos confiar neles.
    Bem haja!

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  2. Gabriela Salazar diz:

    Obrigada pela tão bela e verdadeira partilha. Infelizmente há um grande número de pessoas que me procuram já “no final da linha”; seja por preconceito, seja por estranheza ou até receio que lhes diga algo sobre elas próprias que não sabem ou querem confrontar (mito!!!). No entanto, felizmente os resultados falam por si e as pessoas percebem que a psicoterapia serve para reagirem, para se ”desorganizarem” e para encontrarem estratégias para fazer face às contrariedades que enfrentam, para retornarem à sua “normalidade”. Que todos tenham boas experiências como a sua e que saibam procurar e aceitar ajuda, sempre que precisarem. Obrigada! 🙂

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  3. Marta Silva diz:

    Brutal Filipa
    Adorei o texto e tem tão, mas tão de verdade. Tanto preconceito que há ,como só vai psicólogo quem é “maluquinho”.
    Brilhante parabéns

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