Prendam os animais

Screenshot 2019-07-15 at 12.40.41.pngAntes de chamarem o PAN, leiam com atenção: o título desta crónica não se refere aos animais domésticos, nem aos animais selvagens, mas sim aos animais que provocam distúrbios nos recintos desportivos, sobretudo nos jogos de futebol. A comunicação social costuma referir-se a estes animais como elementos das claques. Senhores, por favor, deixem-se de eufemismos. Chamem, literalmente, os bois pelos nomes: são vândalos, são criminosos e deviam estar proibidos de entrar em qualquer recinto desportivo.

Eu vou regularmente ao Estádio da Luz desde 1993. Regularmente significa quase todos os jogos em casa, visto que tenho lugar cativo. São quase 30 anos a ver o poder das claques aumentar juntamente com a impunidade dos seus actos violentos. Isto apesar de o reforço policial ser cada vez maior. Maior ao ponto de, em jogos considerados de alto risco como um Benfica-Porto, por exemplo, a sensação de ir ao Estádio seja parecida com atravessar a Faixa de Gaza. O que não é nada bonito de se ver quando se leva uma criança pela mão.

Toda a gente que está ligada ao futebol sabe que alguns clubes protegem as claques, que vários elementos das mesmas são como capangas, que servem até para ameaçar jogadores (como se viu em Alcochete no ano passado). Que outros, como o Benfica, dizem que não apoiam as claques, mas depois, sob ameaças, lhes dão inúmeras regalias, que vão de bilhetes grátis até à prioridade na compra de bilhetes para as competições europeias, por exemplo. A todos só tenho a dizer isto, em vernáculo que é para perceberem melhor: tenham tomates. Acabem de vez com as claques, com os sectores especiais dentro dos estádios, com os armazéns para guardar bandeiras, com o acesso privilegiado a certas áreas dos recintos. Acabem de vez com todos eles, como se fez em Inglaterra, onde os estádios estão cheios e os adeptos gritam à mesma pelo seu clube. Não precisamos de bandeiras, cânticos ofensivos e tochas. Tochas, por amor de Deus. Mas o que é isto?

Este fim-de-semana houve inúmeros eventos desportivos de relevo, que passaram pela espantosa final de Wimbledon, à final do Mundial de Hóquei em Patins (já agora, parabéns Portugal!!!). Onde é que houve distúrbios? Num jogo de preparação do Benfica. Mas alguém acha isto normal? Um homem empurrado numa bancada ao ponto de estar em estado grave no hospital? Pessoas agredidas, insultadas, que têm de fugir de certos sectores dos estádios para evitarem confusões ? E isto acontece em todos os jogos. TODOS. Há sempre um ou outro distúrbio, por vezes até entre adeptos da mesma cor. E nos quinhentos programas sobre futebol que existem nos nossos canais televisivos todos os comentadores falam disto. Toda a gente vê, toda a gente fala, mas ninguém faz nada. Ninguém , leia-se os clubes, a Liga, a Federação e, em última instância, a PJ, os serviços secretos e o Governo.

Tive um amigo no 8º ano, também responsável pelo meu interesse no futebol, que era dos No Name Boys. Vinha de famílias problemáticas, tinha 15 ou 16 anos (repetente, portanto) e só trazia para a escola um caderno, uma caneta e A Bola. Ensinava-me os cânticos todos e só falava do Benfica. Vivia para os fins-de-semana, que planeava com antecedência para poder ir atrás do Benfica para todo o lado. Era bom rapaz, muito cómico. Eu deixava-o copiar nos testes porque sabia que ele precisava de, pelo menos, ter o 9º ano de escolaridade. Depois do 9º ano, nunca mais o vi, claro. E lembro-me dele imensas vezes quando olho para a claque dos No Name. É disto que vivem as claques, como qualquer gangue ou grupo mafioso. De miúdos que não têm grandes referências e que precisam de um sentido de pertença. Miúdos que querem tanto fazer parte de qualquer coisa que deixam-se manipular pelos chefes e passam a ser soldados. E depois vendem droga, roubam nos espaços comerciais dos estádios, atiram verylights e pessoas pelas bancadas abaixo. Ou atacam jogadores. Ou pessoas que vão caladinhas a andar para o carro mas têm um blusão da cor errada.

Mas que merda de país é este em que uma pessoa tem medo de ir ao estádio do clube adversário? Que fica a pensar duas vezes se deve levar os filhos a certos jogos? Por que é que os clubes têm tanto medo de proibir completamente as claques? Porque é que as claques não são tratadas como aquilo que realmente são – grupos terroristas organizados? Por que é que quem paga para ver um jogo, seja o seu lugar cativo, seja o bilhete do dia, tem de levar com este tipo de animais? E por fim, se um partido pequeno como o PAN já conseguiu que proibissem os animais no circo, quando é que começa a ser proibido haver animais nos estádios?

 

 

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