Os cromos da bola

Tenho várias memórias de infância à volta de cadernetas de cromos. Naquele tempo, eram uma das grandes diversões da criançada e havia colecções de desenhos animados, telenovelas e, claro, de futebol. O meu irmão fazia sempre as cadernetas dos mundiais e dos europeus, mesmo em tempos em que não era comum a selecção portuguesa marcar presença. E, nos últimos dez anos, voltei a viver a emoção de fazer uma caderneta através do meu filho.

Sim, é realmente emocionante todo o ritual que envolve coleccionar as figurinhas. Juntar dinheiro para ir à papelaria comprar as saquetas, a expectativa antes de rasgar cada uma delas, a alegria de conseguir um cromo difícil e a desilusão quando a maior parte das figuras são repetidas. Depois, há todo o lado lúdico da coisa: a troca com os amigos no recreio, com vizinhos na rua e até com desconhecidos à porta dos pontos de venda, o só poder comprar mais saquetas depois de trocar parte do molho de repetidos, culminando numa ida ao Rossio, quando já só falta uma dúzia de figuras para completar a colecção.

Este ano, já sabia que vinha aí mais uma caderneta, mas nunca pensei que chegássemos à estupidez em massa a propósito de uma brincadeira tão simples e antiga, o que mostra o enorme poder que as redes sociais ganharam nos últimos tempos.

Parece que fazer a caderneta do Mundial 2026 se tornou uma trend no TikTok, com influencers brasileiros e portugueses, incluindo jovens mulheres que costumam falar de cosméticos e modas, a postarem vídeos que inventam glamour numa brincadeira mais do que batida. A coisa tomou proporções tais que até meninas que amam unicórnios e fogem de bolas a sete pés têm de ter a dita cuja, e os canais nacionais dão notícias de pessoas burladas porque acreditaram estar a comprar a esgotadíssima caderneta através de um site incrível e inexistente. A histeria é geral, pois, como em qualquer trend que nasce nas redes sociais, do chocolate do Dubai, aos desafios tão estúpidos que por vezes custam vidas, ninguém quer ficar de fora.

Qualquer quiosque, café ou papelaria que venda saquetas esgota-as num abrir e fechar de olhos, e há sítios que impõem limites de quantidade ou fazem listas de espera. Na papelaria onde compro os meus jornais, a Dona Alice confidenciou-me que há miúdos na fila antes das oito da manhã.

Mas esta não é a pior parte da história. O pior é quando a brincadeira deixa de ser das crianças e passa a ser dos pais, pois Deus nos livre que o filho não consiga acabar a caderneta, coitadinho. Aliás, não só vai acabar a caderneta, como vai ser um dos primeiros! E vai daí, temos pais a ir para filas nas papelarias para comprar, não meia dúzia de saquetas, mas sim quatro caixas inteiras. Sim, caixas. E cada caixa custa setenta e cinco euros.

Portanto, a parte lúdica e saudável de fazer uma caderneta – o passo a passo, o poupar dinheiro para comprar uma ou duas saquetas, o sair dos electrónicos para ir trocar cromos com os amigos, a alegria de ter para a troca um cromo que vale por três – é ignorada por estes pais, cuja missão na vida é dar tudo aos filhos queridos, custe o que custar. Pais que, assim, privam os filhos de desenvolver competências maravilhosas como a paciência, a resiliência e a capacidade de lidar com a frustração.

Porque se é difícil impedir que os filhos se deixem levar pela trend do momento, ao menos podiam deixar que eles aprendessem alguma coisa de útil no processo. Acima de tudo, podiam deixar que eles se divertissem e sentissem o prazer de completar uma caderneta sozinhos, cromo a cromo, como tem sido feito ao longo de várias gerações.