15 anos de livros

Faz esta semana quinze anos que publiquei o meu primeiro livro, «Os Trinta – nada é como sonhámos». Foi uma alegria imensa conseguir concretizar o sonho que alimentava desde a infância, e uma alegria ainda maior receber os comentários encorajadores de quem o leu. Lembro-me bem da sensação de o ver nos escaparates da Feira do Livro de Lisboa, nesse maio de 2011, e a emoção daquele primeiro lançamento, na Livraria Barata, com o Vasco Palmeirim a dar 5 razões para o lerem.

Foi o primeiro e último livro que escrevi antes de ser mãe. Depois dele, todas as minhas personagens e histórias tiveram que disputar a atenção com os meus dois filhos, agora adolescentes. Por isso, não consigo imaginar o que é escrever sem ter de interromper para ir buscar algum deles à escola, para ir ao supermercado, senão não há jantar, para descansar depois de uma noite sem dormir. É um facto que os meus filhos me roubaram muitas horas de escrita, mas julgo que não seria a mesma pessoa nem a mesma escritora se não tivesse sido mãe.

Ao longo destes quinze anos, tive muitas alegrias, mas também muitos dissabores. A Oficina não quis publicar o meu segundo romance, e voltei à estaca zero, sem editora, sem conhecer ninguém no meio, até surgir o convite para publicar na Bertrand. Ao fim de oito anos, e com a incerteza do que seria da indústria após o COVID, também a Bertrand deixou de querer arriscar nos meus livros. Ou seja, ao fim de dez anos a publicar, com cinco livros no mercado, fiquei novamente sem casa e sem chão. Continuava a não conhecer ninguém no meio, já que nunca era convidada para nenhum evento literário ou festival, como acontece com tantas jovens mulheres escritoras, sei-o agora. Só que na altura não o sabia. Achava que o problema era meu e que, embora os meus leitores dissessem o contrário, os meus livros não eram assim tão interessantes. Foi um período terrível, em que achei que nunca mais conseguiria publicar.

Mas eis que surgiu a Penguin, a minha casa, e pelas suas mãos o sucesso de «O Elevador», que em três meses esgotou a primeira edição – algo que nunca me tinha acontecido – e que foi transformado numa curta-metragem . Chegou também a oportunidade de finalmente conhecer outras escritoras da casa e perceber que não era só eu que sentia uma certa discriminação. Todas as mulheres escritoras sentiam que ninguém nos meios literários e na comunicação social valorizava (ou sequer tentava conhecer) o seu trabalho. Então, juntámo-nos e criámos o Clube das Mulheres Escritoras, o projecto de que mais me orgulho nestes quinze anos. Em pouco mais de três anos, conseguimos mudar um bocadinho o mercado e as mentalidades. É inquestionável que desde que o Clube existe, há mais mulheres nos festivais e eventos literários, há mais mulheres nos destaques das livrarias, há mais livros escritos por mulheres portuguesas a serem falados nas redes sociais.

Sim, estes quinze anos têm sido uma viagem incrível, que me fez (e faz!) percorrer o país de lés a lés, que me permitiu conhecer pessoas extraordinárias e encontrar a minha tribo de mulheres que admiro e por quem torço com sinceridade. Sim, em quinze anos consegui ser publicada em vários países e levar a minha Helena à conquista do Brasil. Sim, o «E Se Eu Morrer Amanhã?» vai ser adaptado ao cinema e o «Admirável Mundo Verde» será uma série. Sim, já começo a ser reconhecida por alguns livreiros e convidada para muitos eventos.

Porém, nunca me esqueço do meu percurso até aqui, de todas as lágrimas, de todas as vezes em que me senti culpada por estar a escrever em vez de estar a brincar com os meus filhos, de todas as vezes em que quis desistir e escrever só para mim, de todas as vezes em que ouvi a palavra não ou, pior, senti o desprezo de certas elites. Pode soar a cliché, mas a verdade é que o sucesso repentino não existe, e tudo o que parece fácil dá muito trabalho.

E nunca me esqueço nem esquecerei de quem me ajudou a chegar até aqui:

  • ao Hugo, que nunca me deixou desistir
  • à minha família
  • à Maria do Rosário Pedreira, que lançou o meu primeiro livro e com quem aprendi tanto
  • ao Eduardo Boavida, que me levou para a Bertrand e me apoiou incondicionalmente em cada projecto que fizemos juntos
  • à Barbara Soares, incrível editora da Bertrand
  • à Leonor Rodrigues, que me ajudou no momento em que estava quase a atirar a toalha ao chão
  • à Diana Garrido, a minha editora na Penguin, fada madrinha dos meus últimos livros
  • à Clara Capitão e toda a equipa da Penguin que tem trabalho os meus livros e que são também responsáveis pelo seu sucesso
  • à Marta Ferreira, que me ajudou a encontrar uma casa para os livros infantis
  • à Susana Baptista da Porto Editora e toda a equipa Kids
  • às minhas queridas irmãs do Clube das Mulheres Escritoras, por embarcarem comigo nesta loucura, que dá uma trabalheira desgraçada, mas quen é tão gratificante
  • a todos os livreiros que recomendam os meus livros
  • a todas as Bibliotecas, escolas e festivais que me convidaram a partilhar um pouco da minha história
  • e claro, a todos os meus leitores, os que já leram tudo e os que só leram um livros, os que deixam reviews e os que não dizem nada, os que aparecem nos eventos e os que conversam comigo apenas por email. Muito obrigada por me lerem. Os meus livros são vossos e as minhas histórias não seriam nada sem as asas que vocês lhes dão.

Venham mais quinze!