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EM ADAPTAÇÂO PARA CINEMA PELA UKBAR (PRODUTORA DE «RABO DE PEIXE»
Helena é uma viúva de 79 anos que vive com o gato, independente dos filhos e netos adultos, até ao dia em que, por acidente, pega fogo à sala de estar. Obrigada a mudar-se temporariamente para casa da filha, acaba por revelar um segredo que deixa a família boquiaberta: afinal ainda tem uma vida sexual activa.
«Este livro não é só para as mulheres, independentemente da idade, mas também para os homens, que podem aprender com as pressões a que as mulheres sempre foram sujeitas» Bárbara Wong, Público
«E se eu morrer amanhã? expõe, literariamente, uma vertente do feminismo que nunca foi defendida abertamente» Miguel Real, Jornal de Letras
«Além de nos proporcionar diversão à custa dos tabus sexuais e dos estereótipos acerca das pessoas mais velhas, Filipa Fonseca Silva lança farpas certeiras a uma série de outras questões actuais.» Isabel Daires, Deus me Livro
PRIMEIRO CAPÍTULO
Quando o telemóvel tocou, às três e vinte da madrugada, Luísa soube por instinto que se tratava de uma má notícia. Sentou-se na cama, sobressaltada, e tacteou a mesa-de-cabeceira à procura dos óculos, para conseguir ler o nome que gritava no visor.
— Marília? O que se passa? — perguntou, assustada.
— Houve um incêndio em casa da tua mãe — respondeu a cunhada, que ia no carro, pelo menos a julgar pelo barulho de fundo.
— Um incêndio?! Oh, meu Deus! Ela está bem?
— Sim, ligou-me quando ia a caminho do hospital, mas estava com uma voz serena.
— Hospital?
— Devido à idade, querem garantir que os pulmões estão bem tranquilizou Marília. — Estou a ir para lá agora.
— Também vou!
— Não, espera! Tu tens de ir até ao apartamento para verificares os estragos e veres se consegues trazer a carteira dela, roupa e essas coisas.
— E o Rui?
— Não está cá esta semana.
— Oh, bolas… — deixou escapar Luísa, desiludida. — Bom, então… até já.
Enquanto se vestia com a roupa do dia anterior, resgatada do chão da casa de banho, e fazia uma lista mental das coisas de que a mãe precisaria, Ricardo acordou, estremunhado, e ficou à espera de que a mulher lhe indicasse se era preciso mexer-se ou não. Dos lábios dela, ouviu incêndio… hospital… a mãezinha está bem… tenho de ir a casa dela… deixa-te estar, pelo que apenas garantiu que estaria atento ao telefone e voltou-se para o outro lado. Luísa correu até à porta, arrancando a mala do cabide, vestiu o primeiro casaco que agarrou e percebeu que as chaves do carro não estavam no móvel da entrada, como era suposto. Suspirou, irritada, e entrou no quarto da filha sem acender a luz, vasculhando os bolsos das calças dela, onde suspeitava que ela as teria deixado, esquecidas, como era seu hábito. Fingiu não reparar no cachimbo de água que estava sobre a mesa-de-cabeceira. Queria acreditar que era apenas decorativo, mas… e se não fosse? Estaria a filha a consumir algum tipo de droga? Deveria falar com ela sobre o assunto? Afastou tais pensamentos com firmeza, até porque tinha preocupações mais urgentes com as quais lidar. Afinal, a filha já era uma mulher de vinte e dois anos. Uma estudante dedicada, a caminho do terceiro curso superior (embora não tivesse terminado nenhum dos outros), e que nunca se tinha metido em problemas. Vivia da mesada que os pais lhe davam e de um part-time a passear cães na vizinhança, é certo, e não tinha planos para sair de casa nos próximos dez anos, como milhões de outros jovens da sua idade, mas era importante respeitar o seu espaço e assumir que era uma adulta com quem partilhavam a casa. De graça. Fechou a porta devagar atrás de si, de modo a não perturbar o sono da filha, e pôs-se a caminho do apartamento em chamas.
O único lado positivo de coisas como esta acontecerem às tantas da manhã é não haver trânsito na estrada e os semáforos estarem em modo intermitente, pensou Luísa, enquanto acelerava pelas ruas vazias e quase irreconhecíveis à luz da noite. Os prédios ganhavam todos a mesma tonalidade amarela da iluminação nocturna e a quietude permitia escutar o deslizar dos pneus no asfalto. Sem buzinadelas, sem pára-arranca, sem protestos do carro de trás, conduzir até se tornava uma actividade agradável. Em apenas cinco minutos, chegou à porta de casa da mãe, onde os bombeiros já estavam a terminar o seu trabalho e a prepararem-se para partir. Um deles estava a falar com um vizinho, que Luísa nunca tinha visto antes e que estava encostado à parte de trás de uma ambulância. Era um homem alto e bem-parecido, pese embora a idade avançada. Envergava umas calças de ganga e, por cima, apenas um roupão de seda florido e vaporoso.
— Desculpe interromper, o meu nome é Luísa, sou filha da senhora que foi levada para o hospital — disse ela, dirigindo-se ao bombeiro.
— Ah, bom, então, estava aqui a explicar ao seu pai…
— Pai? — interrompeu Luísa. — Eu não conheço este senhor de lado nenhum!
— Jaime Cortês — disse o homem de robe de seda, estendendo a mão. — Sou o… vizinho.
Luísa olhou-o com estranheza e, sem responder, voltou-se de novo para o bombeiro.
— Já terminaram tudo? É seguro a mãezinha voltar para casa?
— Bom, hoje não voltará de certeza! — respondeu o bombeiro, num tom levemente trocista. — Embora o incêndio tenha ficado circunscrito à sala, são precisos vários dias até o fumo se dissipar totalmente, já para não falar da água. Amanhã, os peritos da polícia e da protecção civil virão verificar o estado da fracção e se há danos nas fracções adjacentes ou zonas comuns. Também virá o perito dos seguros, sabe como é. Depois, convém fazer umas obras de reparação e de pintura, o tecto está todo negro, mas, primeiro, a água tem de evaporar bem, senão, empola. Enfim, é coisa para, no mínimo, três semanas.
— Três semanas? E, até lá, onde é que a mãezinha fica?
— Olhe, não tenho nada que ver com isso, mas, em vez de se preocupar com onde ela fica, devia estar agradecida por a sua mãezinha estar bem e o fogo não ter atingido outras casas. Estes incêndios a meio da noite com pessoas idosas normalmente não acabam bem.
— E posso, ao menos, ir lá acima buscar as coisas dela?
— Um elemento da nossa equipa já esteve lá. Trouxe os documentos e alguns objectos pessoais para a sua mãezinha — respondeu o bombeiro, estendendo-lhe um saco de pano.
Luísa espreitou, incrédula, para o conteúdo do saco. Estavam lá os documentos, os óculos, uma camisa de dormir, roupa interior, umas pantufas, um casaco, umas calças, uma blusa, a escova de dentes, a escova de cabelo e um hidratante de rosto. Luísa interrogou-se como teriam os bombeiros encontrado tudo tão facilmente. Devem ter andado a abrir todas as gavetas, pensou, indignada, a imaginar as mãos enormes e cobertas de fuligem a devassar a intimidade da sua mãezinha. O que valia era que, na idade da mãe, não havia nada a esconder. E as jóias estavam no cofre. Voltou para o carro, preocupada, olhando para a janela da sala do terceiro andar, antes adornada com cortinas floridas, agora um buraco enegrecido. Parecia-lhe que o bombeiro tinha sido optimista quando falou em três semanas. Ainda por cima era Agosto. Onde iria encontrar alguém disponível para fazer a obra de reparação? Tinha de falar com Marília sobre quem tomaria conta da mãezinha até o arranjo estar concluído. Certamente, a cunhada e o irmão, que viviam numa casa com vários quartos vazios. Se bem que teria de esperar que o Rui regressasse para tocar no assunto. Incrível como, sempre que havia uma crise familiar, o irmão não estava. Sobrava tudo para ela. Sem-pre. De repente, veio-lhe à memória uma frase que amiúde ouvia a avó dizer à mãezinha: «Ainda bem que tiveste uma menina para cuidar de ti na velhice.» Será que a necessidade que sentia de cuidar da mãe lhe fora incutida por frases como essa, ou faria parte do código genético feminino? Estariam as mulheres geneticamente e irremediavelmente programadas para cuidar dos outros? Filhos, pais, maridos? Mas, nesse caso, porque era sempre para casa do irmão que a mãe ligava quando precisava de alguma coisa? Deixou-se levar por tais divagações, enquanto se dirigia ao hospital.
Assim que passou pela porta das urgências, afogueada, Luísa encontrou a cunhada sentada na ponta de uma cadeira da sala de espera, com um ar enjoado, como se, ao recostar-se e respirar normalmente, pudesse ser atingida pelas maleitas dos doentes com quem partilhava aqueles metros quadrados.
— Obrigada por teres vindo para cá, Marília. Já estiveste com ela? — perguntou, preocupada.
— Não, ainda está lá para dentro, em observação — respondeu a cunhada. — Mas, quer dizer, isto é coisa para durar horas, a julgar pelo que se vê aqui. Aquele senhor está praticamente a falecer e ainda ninguém o veio ver. E o outro tem um olho ao peito não tarda. Ali, estás a ver?
Luísa ignorou o comentário da cunhada.
— Já conseguiste falar com o Rui? Como é que isto aconteceu? — Não sei, ao telefone, ela disse-me que está óptima, não tem nem um arranhão, só a sala é que ardeu, porque deixou a lareira acesa sem a guarda e pegou fogo à carpete.
— Lareira acesa? Em Agosto? Ai, meu Deus, eu sabia! A mãezinha não está bem!
— Achas?
— Claro que acho! Quem é que acende a lareira em Agosto? E anda meio distraída, sempre a esquecer-se das coisas…
— Agora que falas nisso, já por mais de uma vez se esqueceu de que tinha um almoço na nossa casa — recordou Marília.
— Sabes, este ano nem deu os parabéns ao Ricardo, imagina! — Na verdade, isso também já me aconteceu. Sou péssima com aniversários.
— Bom, isso não interessa agora. O que temos de saber é para onde é que a mãezinha vai nas próximas semanas. O bombeiro disse-me que o fogo não passou da sala, mas, ainda assim, vai ser preciso arranjar o chão, pintar o tecto…
— Não me digas!
— Eu posso ficar com ela por agora, mas depois ela vai ter de ir para a vossa casa. Nós vamos de férias dentro de dias.
— Como assim? O teu irmão não está cá! Não vou ser eu a tomar conta da vossa mãe, ainda para mais, demente!
— Mas…
— Luísa, tem paciência — respondeu Marília, com naturalidade. — Não me posso responsabilizar sozinha. Quando o Rui voltar, logo decides isso com ele. Mas lembra-te de que o gato não fica lá. Tenho imensa alergia.
— O gato! — gritou Luísa, com enorme preocupação.
— Morreu?
— Não sei, não vi gato nenhum! Ai, Marília, se o gato morreu, a mãezinha vai ter um desgosto — choramingou Luísa.
— De certeza que não morreu, os gatos têm sete vidas — respondeu a cunhada, pouco solidária com a preocupação pelo bem-estar de um animal que detestava.
Ao fundo do corredor, abriu-se a enorme porta onde estava escrito em letras garrafais: «Não passar. Acesso restrito.» De lá, surgiu uma auxiliar do hospital mal dormida a empurrar uma cadeira de rodas, na qual uma senhora de aspecto frágil, mas sorridente, estava confortavelmente sentada. Luísa reparou que vestia uma bata de hospital e que tinha pousado no colo algo que se assemelhava a um lençol de padrão exótico, cuidadosamente dobrado.
— Não me diga que a mãezinha vai ter de ficar cá… — lamentou-se Luísa quando a auxiliar parou a cadeira de rodas à sua frente.
— Estou óptima, filha — respondeu Helena. — Podemos ir.
— Mas a mãezinha está de bata — notou Luísa. — Vai ser internada, não vai?
— Não — interrompeu a auxiliar. — A senhora está de bata porque vinha apenas enrolada no lençol. Não temos roupa para lhe vestir.
— Oh, Helena, que vergonha — exclamou Marília. — Não me diga que saiu assim de casa, enrolada num lençol?
— Querias que ficasse no meio do fogo a vestir-me?
— Mas porque é que não estava de pijama? Agora dorme nua, é? Na sua idade? — insistiu Marília.
— Então, mãezinha? — interrompeu Luísa, num tom mais alto do que aquele que usava para falar com as outras pessoas. — Estava com calor por causa da lareira, não estava? — perguntou, segurando a mão da mãe. Depois olhou para a cunhada, levando o indicador junto da têmpora, desenhando com ele pequenos círculos no ar.
— O Chopin? — perguntou Helena, mudando de assunto.
Luísa temera por aquela pergunta. Não fazia ideia onde se teria metido o bicho, se estava morto ou vivo. Na verdade, nem sequer se lembrara de procurá-lo. Melhor dizendo, nem sequer se lembrara de que a mãe tinha um gato. Provavelmente, o bicho fugira, assustado, como fazem todos os animais quando sentem perigo. Tanto podia já ter regressado a casa, como aproveitado para saborear a liberdade. Para sempre.
— Não se preocupe, mãezinha — continuou Luísa, falando devagar. — Já vamos tratar de tudo. O que importa é que está bem.
Findas as burocracias para a alta hospitalar, o dia raiava quando saíram do hospital. No caminho para casa, Helena insistiu em encontrar o gato, que não iria dormir enquanto não o encontrasse, ameaçando mesmo fugir para ir procurá-lo, pelo que Luísa teve de se dirigir novamente ao apartamento carbonizado. Felizmente, o bicho saiu de debaixo de um carro assim que ouviu a voz da dona. Saltou-lhe para o colo e ali foi, aninhado, todo o caminho. Em vez de ficar aliviada e feliz pela mãe, Luísa ficou a pensar se o gato arranharia os sofás. Olhou para a mãe pelo canto do olho e notou que ela sorria, como se estivesse alheada da gravidade do que acabara de acontecer. Sentiu o coração apertado e os olhos marejados de lágrimas. Estaria na altura de consultar um psiquiatra, para atestar a saúde mental da sua progenitora?
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