Dame Vivienne Westwood 50 anos de activismo na moda

Foi com enorme tristeza que recebi a notícia da morte de Vivienne Westwood, não só por ser uma referência do mundo da moda, mas sobretudo uma referência como activista ambiental e como mulher que nunca deixou que os anos lhe tirassem a relevância, que trabalhou até ao fim da vida, exibindo todos os seus cabelos brancos e rugas de oito décadas de vida. Sobre este ponto, aliás, no meu novo livro que sairá em breve, o nome dela consta nos agradecimentos, escritos muito antes de imaginar a sua partida.

Vivienne Westwood será sempre conhecida como a mãe do estilo punk, um título que não rejeitava, mas que se torna muito redutor se olharmos para o todo da sua exuberante carreira. Porque a verdade é que, ao longo dos anos, criou uma estética rebelde muito própria e que não cabe em nenhum movimento. Uma estética que eleva a moda a uma forma de protesto.

Nascida numa pequena vila de Derbyshire em 1941, mudou-se com a família para Londres na adolescência, começando a estudar para se tornar professora primária. Na altura, como tantas outras raparigas, fazia a sua própria roupa, inspirada pelo estilo Teddy e pela Mod dos anos 60. Depois de um breve casamento de onde nasceu o seu primeiro filho, Westwood apaixonou-se por Malcom McLaren, um estudante de arte com ideias situacionistas, que a convenceu a abrir com ele uma loja de roupa na hoje famosa Kings Road, onde vendiam um misto de peças feitas por eles e vintage dos anos 50. Rejeitando as influências hippies e Glam Rock que invadiam as lojas londrinas naquele início de década de setenta, customizavam roupa com slogans anti-sistema, alfinetes de ama, agrafos, látex, inspirados pelo tipo de pessoas que frequentavam aquela parte da cidade: prostitutas, músicos e toxico-dependentes. Entretanto, McLaren começa a viajar frequentemente para Nova York e, fascinado pela cena punk rock da Big Apple, torna-se agente de uma banda que dava os primeiros passos nesse género: os Sex Pistols. A banda frequentava a loja (que teve muitos nomes e na altura se chamava SEX) e usava as roupas que Vivienne fazia. Em pouco tempo a loja tornou-se uma romaria de músicos, artistas e jovens empolgados pela revolução social que estava em marcha.

No entanto, no início dos anos 80, tal como os Sex Pistols, também Westwood e McLaren se separaram, tomando ela as rédeas da sua marca, agora em nome próprio e com um novo objetivo: conquistar as passarelas. Logo na primeira colecção, conhecida como a «Pirate Collection», Vivienne destacou-se pela originalidade, mas também pela facilidade com que as suas peças se tornavam comerciais, coisa rara quando se falava de alta moda nos anos 80. Inspirada pela História, ao longo dos anos foi recuperando os símbolos britânicos, como o tweed, o tartan, os kilts, que foram incorporados na sua visão provocadora, com fechos, rasgões ou nádegas de fora.

«O estilo punk foi apenas uma moda, que dizia sou rebelde, sou contra o sistema, mas que no fundo não passava de um disparate. Não se pode ser do contra só por ser do contra. É preciso pensar. É preciso absorver ideias de vários domínios diferentes e construir a nossa própria visão do mundo.» disse a estilista numa entrevista. E foi exactamente isso que fez, sobretudo a partir do início do século, tornando a sua roupa num veículo claro para mensagens políticas, artísticas e sociais. Das liberdades civis, ao desarmamento nuclear, são várias as colecções onde as suas preocupações com o mundo se manifestaram.

Nas últimas colecções, o foco esteve sempre nas alterações climáticas e na sustentabilidade da indústria de que também vivia. Num desfile na London Fashion Week em 2019, a roupa tornou-se secundária perante as mensagens poderosas contra o consumismo e a moda descartável que os modelos e activistas apresentaram. A colecção chamava-se «Homo Loquax», numa referência à palestra dada pelo escritor Tom Wolfe, onde descrevia os humanos como homo loquax que significa homem falante, em vez de homo sapiens, isto é, homem pensante. «O século XX foi um erro», disse Westwood na altura. «Impôs-se a ideia de que era preciso criar tudo de novo e cortar com o passado. Tudo é descartável, tudo se deita fora. Inclusive o conhecimento, as habilidades e a cultura.»

Mas não se julgue que a estilista andava ao sabor da agenda ambiental que hoje faz abertura de jornais. Há vários anos que defendia veementemente que as pessoas deviam comprar menos coisas e usar as que têm por mais tempo. Aliás, ao ser questionada acerca da importância que tinha para si o seu título nobiliárquico, recebido em 2006 pelas mão da Rainha, Dame Westwood respondia que não significaria nada quando já cá não estivesse. «O que me importa é salvar o mundo. Dar à próxima geração a hipótese de viver.»

Morreu a 29 de Dezembro de 2022. Fica o legado e a inspiração.

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