Farta desta merda

Estou farta desta merda do Covid. Quase um ano disto. Farta de falar, farta de escrever, farta de não poder ir onde me apetece e estar com quem me apetece. Mas acima de tudo, farta de ver como as pessoas são estúpidas.

Bem sei que o ser humano tem a tendência para achar que é o centro do mundo ou que a sua vida é mais importante do que a dos outros. Mas adivinhem: não é. Ou como dizia o meu Táxi, «são ínfimas as [pessoas] que apreciam verdadeiramente aquilo que têm ou aquilo que são; e mais ínfimas ainda as que têm consciência da sua verdadeira insignificância na vida do planeta, este pequeníssimo ponto que gravita em torno de uma de cem mil milhões de estrelas, que compõem uma de duzentos mil milhões de galáxias de um dos vários universos possíveis.». Ainda assim, dada a gravidade da situação, esperava um bocadinho mais da nossa espécie.

A estupidez manifesta-se de várias maneiras e, nos dias que correm, é encarando as medidas que o governo toma para controlar a pandemia como desafios. Estou farto de estar em casa, logo, se o governo diz que posso ir dar um passeio, aproveito e dou um passeio de hora e meia. Se é permitido ir ao supermercado, vou lá todos os dias, mesmo que não tenha nada de urgente para comprar. Já agora, como as ópticas e as lojas de electrodomésticos estão abertas, porque não ir experimentar uns óculos novos ou ver como andam os preços dos aquecedores. Se o café serve a bica no postigo, vou ter com os meus amigos e ficamos a bebê-la ali, de pé, com a mesma descontracção e demora com que o faríamos se nos pudéssemos sentar na esplanada. E como há tantas excepções e maneiras de contornar as regras, saio quando me apetece, vou a casa de amigos almoçar, no regresso paro no shopping, fico na fila para comprar o jornal, sempre se dá dois dedos de conversa e depois, quando me apetecer, lá para o fim do dia, logo vou para casa. E se algum polícia me perguntar porque estou na rua digo que fui comprar pão e está tudo bem. Sinto-me mais esperto do que os outros, que ficam em casa a definhar, deprimidos e assustados com este vírus, que é mesmo isso, só um vírus, que a mim não me atinge e, se atingir, não faz mal, fico logo imunizado e preparado para o mundo pós-covid, sem ter de esperar pela vacina que, está-se mesmo a ver, não vai chegar para todos e, como sou novo, só me deve calhar em sorte lá para 2022. Que se fodam os médicos que estão na linha da frente desde Março. E os bombeiros que ficam seis horas numa fila de ambulâncias, e os mortos que já ultrapassam a centena todos os dias, como se não fosse nada de especial já serem mais de oito mil. O que me preocupa mesmo é quando é que posso ir para o escritório, que isto do tele-trabalho é uma “granda” seca e já agora, quando é que a malta pode voltar aos estádios.

Sim. É realmente uma seca poder estar em casa, com televisão e internet e o frigorífico abastecido. Uma seca poder inspirar fundo e ter pulmões que funcionam. É uma seca viver num estado democrático que permite aos seus cidadãos utilizarem o livre-arbítrio. Um estado em cuja constituição se declara, no artigo 64º, que «todos têm direito à proteção da saúde». Diz também «e o dever de a defender e promover», mas essa parte não interessa nada porque conflitua com os meus planos de ir onde me apetece, que a vida são dois dias e isto já dura há trezentos.

Uma amiga cabo-verdiana disse-me que, por lá, quem anda na rua não é a polícia, mas sim os militares. E não pedem às pessoas gentilmente para irem para casa: arrastam-nas para as carrinhas ou fazem-nas gatinhar até à porta. Tem de ser assim, porque se não, desaparecíamos do mapa, diz ela. Pois. Se calhar tem razão, que isto da liberdade é um conceito confuso e unidireccional. EU sou livre de. EU tenho o direito a. EU, sempre o EU, nunca o nós. O que me remete para uma das minhas frases preferidas de Saramago. «O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses.»

Pois eu, que estou mesmo farta é de gente estúpida, começo a achar que estar em casa é uma benção, a desculpa perfeita para não ter de me expôr à imbecilidade. Até porque, ao ver como os meus concidadãos se têm estado a portar, parece que a estupidez pega-se mais depressa do que o vírus.

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