Vamos continuar a fazer birra à pandemia?

ROBYN BECK / Getty

Foi bom enquanto durou. O verão e o regresso à “quase” normalidade entre Junho e Outubro, que tão bem fizeram à nossa sanidade mental e à economia. Por cá e por toda a Europa, as coisas estavam aparentemente melhores, os números controlados, os hospitais preparados, o sol lá fora a brilhar. Foi bom enquanto durou, mas todos sabíamos que não ia durar muito. Todos sabíamos que, enquanto não houvesse tratamento ou vacina, o vírus ia continuar a circular. Então, não percebo porque é que há tanta gente a queixar-se como se estivéssemos todos a ser enganados e o governo andasse por aí a impor restrições por prazer sádico.

Bem sei que quem nos governa não tem sido coerente. Aliás, desde o início da pandemia. Num dia a máscara não serve, no outro é obrigatória; num dia não pode haver ajuntamentos, no outro há festa do Avante; num dia não pode haver público no futebol, no outro há vinte e tal mil pessoas num autódromo. É verdade que as autoridades deviam ter sido mais humildes e assumir que não sabiam muito mais do que nós sobre o vírus ou sobre quais as medidas mais eficazes para travar a sua propagação. Houve muitas falhas e coisas que hoje, olhando para trás, não fazem sentido. Porém, oito meses volvidos, parece ser consensual no mundo inteiro que:

– o vírus transmite-se com enorme facilidade,

– os idosos e as pessoas com patologias associadas são mais vulneráveis,

– as máscaras e a lavagem frequente das mãos ajudam muito,

– quanto menos pessoas cada um contactar, menor a probabilidade de contaminar ou ser contaminado.

Mesmo assim, com todas as evidências científicas e numa altura em que, no que toca à evolução da doença, a procissão ainda vai no adro, há muita gente que decidiu fazer birra à pandemia, como se fossem crianças que se cansaram da brincadeira. Os meus filhos, de seis e oito anos, ontem também fizeram um bocadinho de birra por não podermos brincar ao Halloween como nos outros anos. Tive de lhes explicar, devagarinho, que não podíamos andar por aí a tocar à porta das pessoas, a entrar e sair de prédios, a aceitar doces de estranhos. Eles responderam que este está a ser o pior ano de sempre, mas, ao fim de cinco minutos lá se resignaram. É normal a reacção deles, com seis e oito anos. Não é normal a reacção de homens e mulheres feitos.

Oh, coitadinhos dos que não puderam fazer o casamento de arromba. Oh, coitadinhos que não houve arraias nem festivais de verão. Oh, coitadinhos que têm de trabalhar em casa, ou fechar a loja mais cedo e ainda gastar um dinheirão em álcool-gel. Beicinhos e mais beicinhos por todos os planos furados e celebrações adiadas. E agora, como se a vida não estivesse já suficientemente entediante, surge a história da máscara obrigatória e da proibição de circulação. Mais, parece que amanhã pode vir a ser decretado novo estado de emergência. Aí é que é vê-los fazerem-se todos vermelhos de raiva e atirarem-se para o chão a bater os pés. A ameaçarem com providências cautelares, a gritarem que proibições destas nem no tempo da ditadura, a questionarem todas as medidas, que a mim ninguém me cala, ninguém manda em mim. E ainda nem chegámos às restrições do Natal, que, ou muito me engano, ou vai ser passado com a família toda reunida, sim, mas em vídeo-chamada.

Malta, acordem para a vida. Isto é uma pandemia, ou seja, uma doença que está espalhada por todo o mundo, OK? Não são só vocês que estão saturados, desanimados, fartos de não poder levar a vida como levavam até Março passado. Não são só vocês que têm saudades dos abraços, dos beijinhos e das jantaradas com os amigos. Não são só os vossos negócios que estão a sofrer, nem os vossos empregos que se estão a perder, nem os vossos planos que tiveram de ser adiados. Toda a gente está a sofrer com isto. (Toda a gente menos aquelas cinco famílias a que os negacionistas das teorias da conspiração se referem – ou serão os chineses? os russos? extra-terrestres?).

E sabem quem é que está a sofrer mais do que vocês? As famílias de mais de um milhão pessoas que já morreram até agora mundo inteiro. E os doentes que estão ligados a um ventilador há não sei quantos dias, em profundo isolamento físico e emocional. E os filhos dos profissionais de saúde que têm estado na linha da frente e que todos os dias vão trabalhar sem saberem se vão regressar a casa infectados. E as pessoas que já lutavam pela sobrevivência a cada dia antes de tudo isto começar e que, agora, vivem em verdadeiro desespero.  

Sim, o COVID é uma merda, sim, estamos todos desejosos que isto acabe, mas vamos colocar as coisas em perspectiva e comportarmo-nos como adultos, está bem? Sem birras e sem pena de nós próprios. Com máscara e com resignação. Numa altura excecional como esta que estamos a viver, aceitar pacientemente as contrariedades da vida não é sinal de fraqueza nem significa que estejamos a permitir atropelamentos à liberdade.  É sinal de respeito pelo próximo, solidariedade e, acima de tudo, juízo.

3 thoughts on “Vamos continuar a fazer birra à pandemia?

  1. Rui Silva diz:

    Republicou isto em Farrusco and commented:
    “E sabem quem é que está a sofrer mais do que vocês? As famílias de mais de um milhão pessoas que já morreram até agora mundo inteiro. E os doentes que estão ligados a um ventilador há não sei quantos dias, em profundo isolamento físico e emocional. E os filhos dos profissionais de saúde que têm estado na linha da frente e que todos os dias vão trabalhar sem saberem se vão regressar a casa infectados. E as pessoas que já lutavam pela sobrevivência a cada dia antes de tudo isto começar e que, agora, vivem em verdadeiro desespero.”

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