A minha Amália

A minha Amália é diferente de todas as outras. É uma Amália que primeiro ouvi pela voz da minha avó e só depois pela dela, algures na minha infância. A minha avó adorava cantar e cantava muitíssimo bem (ainda canta, apesar dos seus oitenta e sete anos e de raramente sair de casa). O fado era e é a sua música e, ao contrário de em minha casa, onde não se ouvia fado, na casa da minha avó não se ouvia outra coisa.

Lembro-me perfeitamente de uma tarde em que estava por lá, sem nada para fazer, quando decidi pôr um dos álbuns que encontrei. A capa era vermelho-escura. Fui passando o disco, de faixa em faixa, até à Casa Portuguesa, cuja letra queria decorar, ouvindo muitos dos clássicos, até começar o Ai, Mouraria, uma das canções que a minha avó mais cantava e que ali, por Amália, se materializava numa obra de arte extraordinária.

A minha Amália viveu, por isso, durante muitos anos, exclusivamente na casa da minha avó. Não era comum ouvir-se fado na rádio, muito menos nos locais que eu frequentava na adolescência.

Até que, por volta dos meus dezasseis anos, fui a uma noite de fados. E então, a minha Amália e outros tantos fadistas que marcaram a história do fado soltaram-se nas vozes de um muito tímido Camané, da Aldina Duarte, da Maria Armanda e do Jorge Fernando. Fiquei fascinada. Não substituí as cassetes das minhas bandas grunge pelo Fado, mas passei a ficar mais atenta ao género e às raras aparições que Amália ainda fazia nesse final dos anos 90.

Quis o destino que um mês e pouco antes da sua morte, me tivesse apaixonado pelo neto de um dos seus mais importantes poetas e compositores, Alberto Janes. O Hugo ficou feliz por eu gostar de Fado e prometeu um dia levar-me a casa dela, para a conhecer. Não tivemos tempo. Amália morreu a 6 de Outubro. Porém, com a sua morte, a minha Amália ressuscitou.

Mais do que nunca, interessei-me por Fado, mais do que nunca comecei a ouvir Fado e até me atrevi a experimentar cantá-lo. Infelizmente, nem eu herdei da minha avó o talento para cantar, nem o Hugo herdou o talento do avô para criar (o que, vendo bem, teria sido uma combinação muito interessante), pelo que nos limitamos a ouvir Fado e a conhecer todas as outras Amálias: aquelas que nos são trazidas por quem canta e as que são partilhadas por pessoas comuns. Como os dois marroquinos que conhecemos em Fez, cujo porta-luvas do carro estava repleto dos seus CD’s e que até sabiam músicas de cor (incluindo o Foi Deus de Alberto Janes), mesmo sem entender bem o significado das palavras. Diziam eles, que não era preciso conhecer as palavras, porque a Amália deles explicava tudo na sua forma de cantar.

António Variações disse que todos nós temos Amália na voz. Eu acrescento que todos nós temos a nossa própria Amália, ligada a determinada época ou memória ou lugar. Esta é a história da minha. Parabéns, Amália.

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