O legado de Quino

Isto não é um obituário. Pouco importa quando e onde nasceu Joaquín Salvador Lavado. Pouco importa em que mundo viveu ou que conjuntura política inspirou as suas tiras. Porque a sua obra, como a dos grandes, é intemporal e os problemas que retratou são os mesmos que vivemos hoje: guerras, fome, ameaças à democracia, crises económicas, racismo, ecologia, o papel da mulher na sociedade.

Isto é, portanto, uma simples homenagem à sua obra maior: Mafalda.

Como tantas crianças da minha geração e de gerações anteriores, cresci a rir com ela. A minha mãe mostrou-me o livro Mafalda, A Contestatária numa altura em que estava a começar a parecer-me demasiado com a personagem, por volta dos meus oito anos mais ou menos.  Aliás, dizia-me muitas vezes que devia ter-me chamado Mafalda, e não Filipa. Sempre a refilar, sempre a questionar, sempre a falar do que era injusto. Tal como acontece com quase todas as sugestões de leitura que a minha mãe me faz, acertou em cheio.  Não foi difícil identificar-me com aquela menina que adorava ler e se preocupava com as injustiças do mundo.

Claro que só mais tarde compreendi as mensagens mais políticas. Faltavam-me referências. Para mim ainda não era óbvio porque é que a amiga pequenina se chamava Liberdade e a tartaruga de estimação Burocracia. No entanto, nesses anos finais da década de oitenta, a televisão estava religiosamente ligada à hora do telejornal, trazendo para dentro de casa a guerra Irão-Iraque, imagens da fome na Etiópia, a Sida e Chernobyl. O mundo estava mesmo doente e era óbvio porque é que a Mafalda aparecia com o seu globo coberto de ligaduras ou tentava limpá-lo das desgraças com o espanador.

Quando mais tarde foi editada a colecção completa em cinco volumes, a minha mãe ofereceu-ma e fiquei surpreendida por descobrir que aquelas tiras tinham sido escritas vinte anos antes, entre 1964 e 1973. Hoje, ao reler algumas delas, parecem ter sido escritas ontem e tenho a certeza de que continuarão a ser actuais daqui a vinte anos. A razão é simples. Segundo o próprio Quino “a exploração do homem pelo homem é inerente ao ser humano e tem-se desenvolvido ao longo de cinco mil anos. Não vejo que isso possa mudar.”

Compreendo a sua visão pessimista da humanidade. Há dias em que também perco a esperança. No entanto, mesmo aos quarenta, e correndo o risco de parecer ingénua, continuo a preferir ser como a pequena Mafalda, nas palavras de Umberto Eco, “uma heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é”. E recordarei sempre Quino como ele gostaria de ser recordado: “alguém que fez pensar as pessoas sobre as coisas que acontecem”. Obrigada Quino por tamanho legado.

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