Notas sobre a actualidade

1.

A pandemia continua a espalhar-se pelo mundo e a obrigar a uma mudança total de paradigma, embora a maioria das pessoas e dos políticos continue a agir como se isto fosse desaparecer daqui a uns meses e a vida fosse voltar ao que era antes.

2.

Spoiler allert: nada vai ser como antes, excepto a estupidez humana, como se pode ver desde logo na maneira como incontáveis pessoas usam a máscara sem tapar o nariz ou insistem a ir a comícios e manifestações sem qualquer protecção.

3.

Olhando para o nosso umbigo, a coisa vai de mal a pior e não tarda teremos mais medidas de prevenção e mais duras. Por mim, acho óptimo, já que os portugueses só cumprem aquilo a que são obrigados. Não se iludam com o respeito que tivémos durante o estado de emergência. As normas só foram acatadas porque as notícias que chegavam de Espanha eram alarmantes e o medo fez-nos ficar em casa. Entretanto, os números baixaram, o Presidente e o Primeiro Ministro adoptaram um discurso optimista para levantar a moral do povo e pronto, começou a palhaçada. Senhores governantes, aprendam uma coisa sobre os portugueses: somos indisciplinados por natureza, detestamos que nos digam o que fazer e gostamos de improvisar. O que significa que, para que sejam cumpridas, as regras têm de ser sempre claras, inequívocas e não opcionais. Isto é válido para pessoas e para empresas. Já estive em restaurantes onde tive de passar os pés num tapete de desinfectante, álcool gel nas mãos, medir a febre e o oxigénio antes de entrar e noutros em que apenas me foi pedido para usar a máscara até estar sentada na minha mesa. É o primeiro que está a exagerar ou o segundo que está a facilitar? Se são dois restaurantes na mesma cidade, porque é que actuam de modo diferente?

4.

Podem fechar negócios, impedir arraias e ajuntamentos, mas enquanto não resolverem o problema dos transportes públicos e da pobreza extrema em que se vive nos bairros pobres das grandes cidades, haverá surtos atrás de surtos. Porque nem todos podem ficar em casa 14 dias em isolamento, sem trabalhar. Nem todos têm casas onde há um quarto para se isolarem. Nem todos estão informados e educados para os perigos desta pandemia. Nem todos têm dinheiro para máscaras e desinfectantes. O problema não é só nosso. Em todo o mundo, o número de infectados aumenta consoante o nível de pobreza.

5.

E por falar em transportes, reforçar as carreiras de autocarros, como disse o ministro, não substitui a falta de comboios, é um facto. Outro facto é que não há capacidade para melhorar os comboios nos próximos três meses. Então, a solução é… fechar os bares e restaurantes mais cedo e proibir que se beba da rua. Até porque os funcionários que levam o vírus para dentro dos locais de trabalho (estou a lembrar-me dos lares ou das fábricas onde têm surgido novos focos) não andam de transportes. São é grandes malucos do botellón. Há anos que os utentes reclamam por mais carreiras, mais carruagens, mais dignidade nos transportes públicos, mas como sempre neste país, só depois da desgraça é que se actua.

6.

Era bom que o Governo, em vez de andar toda a legislatura em campanha eleitoral, começasse a assumir a gravidade da situação económica do país e se rodeasse de pessoas competentes, em vez de familiares e amigos. Acima de tudo, que começasse a chamar os bois pelos nomes e a usar as palavras que nos acompanharão inevitavelmente nos próximos tempos: recessão e austeridade. Repitam comigo, senhores ministros: recessão e austeridade. E agora para o orçamento de 2021: recessão e austeridade.

7.

Faltam dois meses para o arranque do ano lectivo. Se as escolas voltarem a fechar devido a novas vagas, internem-me por favor. A minha saúde mental ainda não se refez totalmente do impacto de ter os miúdos com aulas em casa durante três meses. A ideia de que as escolas possam voltar a fechar durante tempo indeterminado ao longo do próximo ano lectivo, dá-me arrepios. Como escrevi recentemente aqui no blog, as crianças precisam de escola. E os pais precisam de trabalhar para ajudar na recuperação económica e não engrossar a despesa pública com subsídios de apoio à família ou de desemprego.

8.

Enquanto anda tudo preocupado com o vírus e a deixar máscaras e luvas descartáveis a voar livremente pelas ruas fora, a Sibéria atingiu temperaturas de 38ºC, no Quénia o governo prepara-se para aprovar uma lei que permite construir estradas e urbanizações no meio de um parque natural e a Amazónia está outra vez a arder. Preocuparmo-nos apenas com a pandemia, descurando as metas que temos que cumprir para controlar os efeitos do aquecimento global, é o mesmo que centrarmo-nos em salvar um doente de covid nos cuidados intensivos, enquanto o resto do hospital está em chamas.

9.

Não. Não vai ficar tudo bem. A maioria das pessoas vai passar por dificuldades nos próximos tempos. E desta vez não é só cá ou nos países do sul da Europa. É por todo o mundo. Logo, também não vão ser os turistas a salvar-nos. Teremos de aprender a viver com menos, a reaproveitar os recursos, a mandar arranjar o que se estraga. Acabou a economia chiclete. Não acredita? Leia de novo o ponto 1.

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