Moda e Hip-hop: uma história de amor

Screenshot 2020-03-03 at 16.11.02Nos últimos dois anos, mais de uma dúzia de marcas de luxo, incluindo Louis Vuitton, Saint Laurent ou Marc Jacobs, tiveram artistas do Hip Hop como estrelas das suas campanhas publicitárias, enquanto marcas como a Chanel, Versace ou Gucci fizeram colaborações para vários dos seus produtos. Nas primeiras filas dos desfiles, onde antes se sentavam aristocratas e jet-setters, sentam-se agora rappers influentes, como se viu no desfile de Alexander Wang na New York Fashion Week do ano passado, onde Cardi B foi a escolhida para estar no lugar mais cobiçado da assistência: ao lado da todo-poderosa editora da Vogue americana Anna Wintour. Também nas escadarias da distinta Met Gala, desfilam hoje rappers, as verdadeiras celebridades.

Mas como começou esta história de amor?

Os artistas Hip-hop sempre citaram marcas luxuosas para projectar uma certa imagem e marcar a chegada a um determinado patamar de sucesso. Um dos pioneiros foi o britânico MC Ricky D  que  menciona pela primeira vez Gucci, Polo e Bally na música “Di Di Di”, lançada em 1985. Porém, nessa altura, as marcas de luxo queriam distância de tudo o que tivesse que ver com esta cultura, dominada por pessoas negras, que falavam de problemas que os brancos e ricos desconheciam e que eram pouco glamorosas para os padrões da indústria na altura. Até os stylists de artistas Hip-Hop sofriam para conseguirem que os seus clientes usassem as marcas de que gostavam e os seus pedidos eram invariavelmente negados. Mas estes artistas não desistiam e quanto mais inalcançável era a marca, mais a desejavam, facto que abriu portas ao designer Dapper Dan, que usava os logótipos da Gucci e da Louis Vuitton, devidamente customizados, nas suas criações e alcançou um sucesso tal que chegou a ser processado pelas marcas. (Hoje tem uma loja/parceria com a Gucci em Nova Iorque.)

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Dapper Dan na sua loja em 1989 @Wyatt Counts

Só na viragem do século algo começou a mudar. Em 1999 a fotografa Annie Leibovitz fez um ensaio fotográfico com Puff Daddy e Kate Moss para a edição de Outubro da Vogue americana, “Puffy Takes Paris.” O rapper que estava no seu auge e se tornara uma estrela graças aos seus êxitos, mas também ao badalado casamento com Jennifer Lopez, de repente era visto ao lado de Jean Paul Gaultier, Karl Lagerfeld, Oscar de la Renta, Alek Wek e John Galliano. De repente, rappers andavam de braço dado com modelos, expressões como “ghetto fabulous” e “bling” saíam da boca de toda a gente no mundo da moda e Lil’ Kim tornou-se a musa e melhor amiga de Marc Jacobs. Pouco depois, em 2005, o próprio P. Diddy ganhou o prémio de designer do ano do CFDA (Council of Fashion Designers of America), com a sua marca Sean Paul, batendo veteranos como Ralph Lauren ou Michael Kors. A moda nunca mais seria a mesma.

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Kate Moss e P. Diddy, Vogue 1999 @Annie Leibovitz

Depois chegou Pharrell Williams. Com o seu projecto N.E.R.D. mudou as cores da música urbana e deu ao hip-hop um novo estilo, introduzindo o skate, o streetwear japonês, o punk, e criando um mundo onde artistas como Kaney West surgiam de mochila às costas e pólo cor-de-rosa sem que isso parecesse estranho. Pharrell era diferente de toda a gente do hip-hop. Usava calças justas, t-shirts à medida e chapéus originais, o que hoje pode parecer normal, mas que na altura foi a confirmação de que havia outras possibilidades para todos os afro-americanos que não se viam representados nem pela cultura Pop nem pela imagem estereotipada do Hip-hop, com fatos de treinos e correntes douradas ao pescoço. O estilo de Pharrell foi uma lufada de ar fresco que destruiu estereótipos a cada aparição pública. Usava casacos de mulher Céline, jóias Chanel e até mandou fazer uma Birkin da Hermés em pele de crocodilo roxa, que carregava para todo o lado. O hip-hop deixava de estar conotado a um estilo e começava a ter uma voz cada vez mais abrangente. E original.

Hoje a música rap está no topo das tabelas e os seus artistas são autênticas celebridades. Não só podem comprar qualquer marca de luxo que lhes apeteça como ainda recebem peças dessas mesmas marcas para que as usem e partilhem nas redes sociais. «As marcas de luxo acordaram para uma realidade em que os rappers estão a dominar a conversa», diz Christopher Morency, assistente editorial da Business of Fashion.

E terá esta história de amor um final feliz?

«O Hip-hop abraçou a moda muito antes da moda abraçar o hip-hop» diz Kyle Luu, uma stylist e directora criativa que trabalhou com artistas como Travis Scott and Young Thug. «As pessoas do mundo da moda, chegam sempre tarde às festas.»

Tarde ou não, o facto é que esta história está longe do seu final e que, por enquanto, é muito feliz. Porque o Hip-hop é um movimento social e cultural em constante evolução. Não se prende a uma imagem em particular, sendo na verdade um estilo de vida que oferece sempre algo novo. E isso é, precisamente, o que a alta moda sempre procura.

 

Texto originalmente publicado na revista Lisbon Unique, edição de dezembro 2019.

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