O mundo “low cost”

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Fazer um bom negócio é algo a que todos aspiramos. Obter mais quantidade por menos valor, comprar algo com um excelente desconto, receber um produto em troca de quase nada, enfim, há inúmeras maneiras de chegarmos ao fim do dia orgulhosos da nossa capacidade de poupar dinheiro. Sentimo-nos inteligentes, e até um pouco superiores, por termos conseguido comprar ou usufruir de algo fantástico, por um valor muito mais baixo do que o seu valor real. Sentimo-nos felizes com as nossas conquistas, mesmo quando estas, vai-se a ver, não têm qualquer utilidade.

Esta satisfação pessoal de ter mais por menos, tem levado as empresas a criarem produtos e serviços cada vez mais económicos, indo ao encontro daquilo a que lhes parece que os consumidores estão dispostos a pagar. Lojas de roupa, de eletrodomésticos, de mobilia, restaurantes, companhias aéreas, hotéis, transportes, comunicações, tudo é low cost agora. Como?  À custa da qualidade das matérias primas, dos custos com mão-de-obra, dos serviços pós-venda, das preocupações ecológicas ou ainda à custa da precariedade de quem cria. Podia agora enveredar pelas explicações económicas deste fenómeno. Mas esse não é o ponto (muito menos a minha especialidade).

O ponto é que um bom negócio, hoje em dia, é ter tudo por quase nada, começando nos produtos de grande consumo e terminando nos produtos culturais. Todos querem usar a roupa da moda, mas nem pensar dar mais de 10 euros por uma t-shirt. Todos querem comida orgânica e saudável, mas ficam chocados se o preço da refeição for muito maior do que um menu do McDonalds. Todos querem um detergente que lave bem e não seja agressivo para o ambiente, mas tem de custar o mesmo que os outros. Todos querem estar informados e ler bons artigos, mas deixaram de ir ao quiosque e não estão dispostos a fazer uma assinatura digital. Todos querem ver os filmes nomeados, mas o que seria esperar que cheguem ao cinema e pagar por um bilhete. Todos querem que as galerias fervilhem de actividade, mas nunca investiram numa obra de arte na vida. Muitos (não todos, infelizmente) querem ler um bom livro, mas só entram numa livraria na véspera de ir de férias (na melhor das hipóteses).

Ou seja, as pessoas habituaram-se a pagar um determinado valor (ou nada!) por determinados produtos e serviços e por isso, já não estão dispostas a voltar a pagar o preço justo. Vá, numa coisa ou outra lá se faz o investimento – no bilhete para o Alive, nos ténis que têm de ser, no telefone xpto – mas sempre no modo excepção.

Então, o que é que sobra para quem faz? Como fica quem cria, quem inventa, quem imagina? Valerá a pena continuar a criar produtos, conteúdos, obras originais por um valor cada vez menor e tantas vezes puramente residual? E se os jornalistas deixassem de investigar? E se os músicos parassem de tocar? E se os actores se recusassem a actuar? E se os escritores deixassem de publicar?

Sobrariam o “jornalismo” da CMTV, a roupa da Primark, a casas IKEA e os livros do Chagas Freitas. Então, o ponto é: será esse o mundo onde queremos viver?

 

 

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