As viagens de carro são intermináveis

 Escrevi em tempos uma crónica sobre férias com crianças e toda a logística e stress que envolvem, desde a chegada à praia ao estilo burro de carga, aos horários nunca antes experimentados. Só que na altura eu tinha dois bebés que, ao fim de cinco minutos no carro, adormeciam, oferecendo-nos uns momentos de paz até ao destino final, facto que fez com que tenha deixado de fora toda uma análise à questão da viagem. Hoje os bebés têm quatro e seis anos e entraram oficialmente na idade em que fazem qualquer um preferir viajar no autocarro descontrolado do “Speed” do que ao seu lado.

Tudo começa ainda no estacionamento. Enquanto nós, pais, lutamos herculeamente para conseguir colocar as duas malas, três necessaires, geleira, brinquedos e chapéus de praia, almofadas, bolas, pranchas e o raio do urso de peluche no porta-bagagens, já os índios andam à solta dentro do carro, mais excitados do que se tivessem feito uma linha de coca, a saltar para o banco da frente, a discutirem sobre quem se senta de que lado, a mexer nos botões todos do rádio. Isto quando não decidem sair do carro porque está muito calor, ou está muito frio, ou precisam de água ou têm fome embora tenhamos acabado de tomar o pequeno-almoço. Três gritos autoritários e duas palmadas depois, lá conseguimos pôr-lhes o cinto e arrancar naquela que, mesmo que só dure duas horas, será uma viagem interminável.

Passamos então para a próxima fase: a escolha da banda sonora. Sim, aos seis anos as crianças já têm algumas preferências musicais, nem sempre alinhadas com o gosto dos pais. Por exemplo, lembro-me perfeitamente de nessa idade ter obrigado a minha família a ouvir a cassete inteira dos Onda Choque numa viagem a Espanha e ter deixado o meu irmão traumatizado até hoje. No caso dos meus filhos, ainda nos dão a escolher entre a Mega Hits, Funk brasileiro ou Regatton. Se a isto se juntar aquele trânsito clássico de saída da cidade, está-se mesmo a ver onde é que os nervos ficam.

Sintonizado o rádio (finalmente) numa estação que os faça sossegar começa a fase Burro do Shrek. Quando é que chegamos? Falta muito? Duas horas? Mas isso é imenso tempo? A sério, quando é que chegamos? É nesta altura que o autocontrolo de uma mãe me surpreende. Como não deixá-los ali, na beira da estrada? Como não desistir de tudo e voltar para trás? Estava tão fresco no escritório…

Segue-se a fase da implicância. Só quem não tem mais do que um filho e não teve irmãos não percebe do que estou a falar. Duas (ou mais) crianças num banco de trás é a receita perfeita para o desastre. O aborrecimento e frustração que sentem por estarem fechadas num carro e presas a uma cadeira resulta em pequenas discussões e implicâncias que fazem perder a paciência a um santo. Tira daí o pé, esta é a minha metade. Dá cá isso! Não te empresto! Ó mãe, ele deu-me um beliscão! Ó mãe, ela não me dá o meu boneco! Ó mãe, ele deu um pum! E por aí em diante até a mãe se virar para trás quase a espumar e proferir ameaças vãs que metem coisas como “não comes nem um gelado nas férias”, coisa que até uma criança de quatro anos sabe que não é verdade.

A paz é restabelecida mas por pouco tempo. Só que à segunda costuma ser o pai a intervir com ameaças do tipo “páro já o carro e dou uma palmada em cada um”. Recordo-me agora de ter ouvido o meu pai proferir as mesmas palavras mais do que uma vez. Não me lembro se alguma vez ele saiu mesmo do carro. Provavelmente sim. E se me deu alguma, vejo agora que foi “muita” bem dada.

Passamos para a fase do quero xixi, cocó, comer, água, sumo, estou maldisposto. Se o destino final está próximo, inventamos histórias para se aguentarem, porque a perspectiva de tirá-los do carro e voltar ao filme do põem o cinto, não ponhas os sapatos nas costas do banco do pai, tira isso daí para a tua irmã se sentar, é demasiado deprimente. Histórias essas que incluem pérolas como “a polícia não deixa parar aqui” ou “esta área de serviço não tem água”. Se o destino final está longe, lá temos mesmo de parar e, no regresso ao carro, sentir que estamos a viver no minuto da marmota.

Depois de tudo isto há ainda tempo para uns dez ou vinte “falta muito?” até finalmente estacionarmos o carro e os soltarmos como dois macaquinhos na selva depois de anos em cativeiro, demasiado cansados para os controlar. Tentamos tirar tudo do carro o mais depressa possível e fechar a porta do nosso alojamento, fugindo aos olhares reprovadores dos veraneantes que estavam em paz naquele mesmo local antes de chegarmos com a intensidade do furacão Katrina. Seguem-se pelo menos oito dias, se não forem quinze ou vinte, em família. Vinte e quatro horas por dia. Sem uma escolinha ou um ATL. E uma viagem de regresso igualmente atribulada. Fixe, não é?

Resta-me, pedir desculpas aos meus pais por todas as viagens que tornei infernais. Podem ficar descansados e rir muito aí sentadinhos no sofá. O Karma existe mesmo.

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