Os números da desumanidade

Hoje assinalam-se três anos desde o início do fim da humanidade. E, neste caso, uso a palavra no seu sentido figurado de benevolência, clemência ou empatia. Neste dia, em 2023, uma organização terrorista palestiniana levou a cabo um ataque concertado a civis em várias localidades do sul de Israel, incluindo uma base militar e um festival de música. Além das 1200 mortes (entre israelitas e estrangeiros), houve tortura, mutilações genitais e violações. Mais de 250 pessoas foram feitas reféns, entre soldados, civis e crianças. Muitos morreram em cativeiro.

O mundo condenou o ataque, que, sabe-se hoje, era do conhecimento dos serviços secretos de Israel. E Israel retaliou com um bombardeamento em larga escala na Faixa de Gaza, território controlado pelo Hamas desde 2007, com vista a provocar a «destruição das capacidades militares e governamentais do Hamas e da Jihad Islâmica Palestiniana», segundo comunicado do Gabinete de Segurança. A história poderia ter ficado por aqui, como mais um momento dramático de um conflito que existe desde a criação de Israel.

Só que, mais tarde, o governo sionista de extrema-direita revelou as suas verdadeiras intenções, que em parte explicam por que razão as forças israelitas, conhecidas por serem as mais bem preparadas do mundo, prontas a entrar em acção em minutos e com bases militares em toda a fronteira com Gaza, demoraram entre 8 e 20 horas a chegar a alguns dos locais atacados. Sacrificar a vida dos seus cidadãos para justificar, perante a comunidade internacional, um ataque esmagador.

«Agora temos um objectivo comum: apagar a Faixa de Gaza da face da terra», Nissim Vaturi, deputado e ex-vice Presidente do Parlamento, 9 de Outubro de 2023

«Em Gaza, sem exceção, são todos terroristas, filhos de cães que têm de ser exterminados. Vamos arrasar Gaza, transformá-la em pó, e depois o exército limpará a área», Danny Neumann, ex-futebolista e comentador desportivo, Dezembro de 2023

«Israel tem de encontrar formas mais dolorosas do que a morte para os habitantes de Gaza.» Amihai Ben-Eliyahu, Ministro do Património, 5 de Janeiro de 2024

«A vida de um judeu vale dez milhões de palestinos»

Yehuda Shimon, líder de um colonato, Julho 2026

«Penso que devem ser feitos assassinatos seletivos em Gaza, eliminando 30 a 40 todas as noites. Não apenas os que representam uma ameaça imediata. Há ali pessoas que não merecem viver. Nem sequer são pessoas.»

Ben Gvir, Ministro da Segurança Nacional, Agosto de 2026

Durante estes três anos, Israel tem conseguido o seu intento. Parte da Faixa de Gaza está feita em escombros e 70% está ocupada por Israel, que impede o acesso a comida, médicos e bens essenciais. Não só Israel não permite a entrada de ajuda humanitária, como prende, tortura e viola os que tentam entrar em Gaza pelo mar. Crianças são abatidas por snipers com tiros na cabeça. Repito: crianças são abatidas por snipers com tiros na cabeça.

Mas voltando aos números: nos bombardeamentos sucessivos já foram assassinadas mais de 73 mil pessoas, incluindo mulheres, crianças e adolescentes, e feridas mais de 174 mil. Não estão contabilizadas as desaparecidas e as que, entretanto, têm morrido de fome e doenças associadas à precaridade das condições de vida. A quase totalidade dos 2,3 milhões de habitantes do enclave foi forçada a abandonar as suas casas, vivendo uma crise humanitária sem precedentes em acampamentos infestados de ratazanas e sem água potável. Os jornalistas são abatidos a tiro e já morreram em maior número do que em todas as guerras do século XX combinadas. Os vários relatórios da ONU, dos Médicos Sem Fronteiras e de outras associações independentes não deixam margem para dúvida: está a acontecer um genocídio.

Ainda assim, e já que hoje em dia qualquer assunto descamba em opiniões polarizadas, e quem defende a Palestina é considerado antissemita de extrema-esquerda, vamos por pontos:

  1. Denunciar um genocídio e apelar ao fim da destruição de Gaza não é ser contra os israelitas
  2. Condenar o sionismo da extrema-direita não é ser contra os judeus.
  3. Condenar o genocídio não significa não condenar os atentados de 7 de Outubro
  4. Ser pela libertação da Palestina não é ser a favor do Hamas.
  5. Defender um acordo de paz que passe pela criação de dois estados não é ser de esquerda.
  6. A partidarização de questões de direitos humanos é uma arma da propaganda
  7. Ao contrário do Holocausto, cujos horrores só vieram à luz após o fim da guerra e ao longo de muitos anos de estudo, este genocídio está a ser transmitido em directo. Podemos fingir que não sabemos o que está a acontecer, mas todos sabemos que sabemos.

Dia 10 de Outubro o mundo sai à rua pela Palestina. Uma marcha pelo fim do genocídio que conta com o apoio de muitos judeus e israelitas e de todas as pessoas que não conseguem olhar para o lado.

Gaza

Não sei explicar esta dor

que me atravessa como uma espada

ignorando o ecrã que nos separa.

Fui tecida por fios de paz,

num lugar onde não cabem certas imagens

nem nos ensinam o que fazer com elas.

Desligo a televisão,

o telefone,

o mundo,

mas a dor é indiferente a eu não ter onde arrumá-la.

No meio dos escombros não há esconderijos.