Deslumbramento

Este ano, pela primeira vez em mais de cinco décadas, uma nave tripulada foi à Lua, e ninguém pareceu deslumbrar-se. Desta feita, não houve pequenos passos para o homem na superfície, mas houve imagens tão comoventes como as primeiras, de 1969. Em todas as plataformas, da imprensa à televisão, das redes sociais ao site da NASA, a Lua foi vista na sua plenitude, em directo, em diferido, a cores e a preto e branco. Os astronautas a bordo partilharam mensagens, vídeos, lágrimas, e ninguém pareceu deslumbrar-se.

Recordo tempos em que a exploração do Espaço parecia algo do domínio da ficção científica, em que querer ser astronauta era um sonho inalcançável, tão distante da realidade como querer ser cowboy ou super-herói. Talvez por isso, mesmo sabendo que hoje já se enviam sondas a Marte e se preparam viagens turísticas espaciais, fiquei surpreendida com a falta de interesse pelo nosso único satélite. 

A Lua é muito mais do que um enfeite para nos banhar em noites límpidas e inspirar poetas e amantes. Na verdade, é um escudo cósmico que nos defende de meteoritos na imensidão negra que nos rodeia. Que impede a nossa aniquilação. Em mais de quatro mil milhões de anos, já nos protegeu de centenas de milhares de embates, e as suas cento e dez mil crateras são as cicatrizes de uma inabalável devoção.  

Quando é que ir à Lua se tornou banal? Como é que tal feito não ocupa todas as conversas de café, durante dias, semanas ou meses? Será porque todos os dias damos de caras com coisas absurdas e inimagináveis? Líderes dementes, populistas que urram, iminência nuclear. Imagens criadas por inteligência artificial que parecem reais, e imagens reais que parecem criadas por inteligência artificial. Uma ilha de plástico, um robô que serve às mesas, drones assassinos, Gaza…

Admito que a minha selenofilia me impossibilite de ser imparcial quando se trata da Lua. No entanto, a indiferença geral perante esta viagem e as imagens extraordinárias que nos chegaram leva-me a reflectir sobre a indiferença geral perante tantas outras coisas que outrora nos maravilharam. Pequenas tartarugas a eclodir dos seus ovos e a dirigir-se em fila para o mar. Os tons de rosa que pintam os céus ao entardecer. A capela Sistina. Os Noturnos de Chopin. 

Ou então é apenas tolice minha, que ainda reajo como uma criança de três anos perante as maravilhas da terra e dos homens. Que ainda me comovo com o milagre de vivermos num planeta rodeado de nada, suspensos num vazio sem fim conhecido, centelha de uma explosão num tempo tão longínquo que nem cabe na nossa medida. Sim, pensando bem, talvez seja injusto esperar que toda a gente se deslumbre com uma mera viagem espacial. Em tempos tão incongruentes e artificiais, talvez o normal seja ninguém se deslumbrar.  

(Texto escrito para a revista Seara Nova em Junho de 2026)