Um dia destes

Um dia destes, recebi um telefonema e larguei tudo por ti. Mesmo tudo. Não quis saber da reunião das cinco, nem da falta de iogurtes no frigorífico. Não me preocupei em  ir buscar os miúdos à escola, nem me importei que fosse hora de ponta. Tinha de te ver, impreterivelmente, tudo o resto que esperasse.

Fiz o caminho em piloto automático, confiando nas indicações da aplicação de navegação, enquanto recordava as últimas conversas que tínhamos tido ao telefone, cada vez mais espaçadas, cada vez menos demoradas. Quinze ou vinte minutos a fazer o resumo de vários meses de vida, não mais do que isso, que o arroz está ao lume, o mais novo está a chamar, o teu gato acabou de atirar um vaso ao chão. Não era por mal. A vida é que é mesmo assim. Há sempre qualquer coisa mais urgente do que uma mera conversa entre amigas.

Por vezes, determinada música ou notícia fazia-me querer ligar-te. Porém, nunca era a hora certa. Sabes como é. Durante o dia, achava que podias estar no escritório, ocupada, e à noite, não queria interromper o teu jantar. Quando me despachava dos meus afazeres, olhava para o relógio e achava que já era demasiado tarde. Ligo amanhã, ou depois. Talvez no fim-de-semana. Sim, no fim-de-semana é o ideal. Podemos falar com tempo, dizia para mim própria. Outras vezes, aparecias-me em sonhos, alguns tão trágicos e angustiantes que acordava em sobressalto. Teria o sonho sido um sinal? Precisarias de mim? É hoje que ligo, prometia, mas nem sempre cumpria, pois a angústia depressa se dissolvia na luz baça de mais um dia com a agenda cheia.

Quando finalmente conseguíamos conversar ao telefone, terminávamos sempre com a promessa não cumprida de um jantar, ou talvez um almoço a meio da semana, ou, vá, um mero café, mas não ao fim do dia, que, já se sabe, não dá jeito nenhum. O trânsito, os miúdos, o projecto para entregar. Não interessa, temos de nos ver, de nos abraçar. Marcamos já para a semana? Não pode ser. Tu vais estar fora, em trabalho, e eu tenho uma consulta qualquer. Na semana seguinte, os teus pais vêm visitar-te, e são os anos da minha irmã. Não é por mal. Tu sabes. Mas é difícil conciliar agendas. Talvez no sábado, se não houver torneio dos miúdos ou almoço de família. Ou então nas férias. Melhor nas férias. Já esperámos tantos meses que podemos esperar mais dois. O Verão está aí à porta. Um dia de praia, conversas à beira-mar, fechar o dia com uma sardinhada… isso é que era! Lembras-te de quando passávamos férias juntas e eu te ensinava a boiar? Tinhas algum medo do mar, mas comigo aventuravas-te, como se eu, com a minha fraca figura, te pudesse valer de muito em caso de aflição. Dizias que flutuar no mar era a melhor sensação de sempre e fizeste-me prometer que flutuaríamos de mãos dadas até sermos velhinhas, lembras-te? Há tantos anos que não o fazemos, mas agora é que vai ser.  Nas férias, então, sem pressas, sem hora marcada. Está prometido!

Era sempre assim, não era? A nossa amizade reduzida a encontros pontuais, duas ou três vezes por ano. Como é possível o tempo passar tão depressa? Ainda ontem era Natal…

Mas hoje foi diferente.

Hoje compareci.

Mesmo em plena hora de ponta, mesmo sem saber bem a quem pedir para ficar com os miúdos ou quem trataria do jantar. Larguei tudo, mesmo tudo, por ti. E ainda te levei flores. Imagina! Há tanto tempo que não te oferecia flores…

Quando finalmente cheguei, fiquei a olhar para elas sem saber o que lhes fazer, até ganhar coragem para entrar. Só aí caí em mim. Abracei-me ao teu marido e comecei a soluçar, mas tu, embora deitada mesmo ao nosso lado, já não me ouviste, pois não?

Não importa. Um dia destes, teremos o nosso tempo. Num outro mundo, que talvez seja eterno. No qual talvez haja uma praia enorme para corrermos mar adentro entre gargalhadas. Só peço que tenhas paciência e não desistas de mim. Haveremos de flutuar de mãos dadas.

Conto escrito para a newsletter do Clube das Mulheres Escritoras.