Tenho uma filha de doze anos e um filho de catorze. Pouco a pouco, e como é
típico da idade, estão a lançar-se ao mundo, a explorar novas vivências e geografias. O
mais velho anda sozinho nos transportes, vai jantar fora com os amigos e passa tardes
inteiras na rua, gozando dos primeiros anos de pura liberdade. A mais nova começa
agora a dar esses mesmos pequenos passos, em trajetos curtos, ainda acompanhada
de uma amiga, a ganhar autonomia.
Sem alarmismos, expliquei-lhes que devem ter cuidado em locais com muita
gente, pois pode haver carteiristas, pedi-lhes que estejam atentos ao telefone, mas sem
exibi-lo, e que, se tentarem assaltá-los, devem entregar tudo sem resistir, porque não
vale a pena pôr em risco a integridade física por um bem material. Ensinei-lhes ainda
que, se por qualquer motivo se sentirem inseguros, devem aproximar-se de alguém que
os possa ajudar — um casal simpático, o condutor do autocarro, o segurança que está à
porta de uma loja. Infelizmente, no caso da minha filha, com uma certa revolta por ainda
estarmos neste lugar, tive de ensinar mais algumas coisas.
Tive de ensinar que há homens que lhe vão sussurrar obscenidades ao ouvido e
outros que se vão tentar encostar a ela num autocarro lotado. Há homens que vão tentar
tocar-lhe, fingindo que foi por acaso, e outros que vão ser mais descarados e tentar
iniciar um diálogo. Como te chamas? Onde vais? Estás sozinha? Sinal de alarme. Nunca
podes dizer que estás sozinha. O teu pai está sempre à tua espera na paragem. O teu
irmão está sempre na outra carruagem. O teu namorado foi só à casa de banho. Em
último caso, grita, insulta, dá-lhe um pontapé. E se ficares paralisada de medo? Com
vergonha de que toda a gente esteja a olhar para ti? E se só te apetecer pregar os olhos
no chão, contendo as lágrimas, enquanto tentas perceber o que fizeste de errado? Aí,
filha, lembra-te de que não fizeste absolutamente nada e que a vergonha não és tu quem
tem de carregar.
São esses homens que têm de sentir toda a gente a olhar para eles. Os homens
doentes, que sexualizam o corpo de uma menina de doze anos. Os homens nojentos,
que gostam de provocar adolescentes porque sabem que elas dificilmente respondem.
Os homens neerdentais, que ainda acham que o corpo de uma mulher é um objecto a
admirar, cobiçar e usar a seu bel-prazer.
Não, filha!
Não, meninas e mulheres de todo o mundo! O vosso corpo é só vosso. Podem
vesti-lo e adorná-lo como quiserem. Podem levá-lo com orgulho a qualquer lugar. A
vossa existência nunca é uma provocação.
E vocês, queridos filhos, pais e irmãos, não pensem que não é nada convosco.
Cheguem-se à frente para proteger cada mulher à vossa volta. Respeitem cada não.
Aprendam a diferença entre ser sedutor e ser inconveniente. Parem de normalizar os
comentários boçais, os grupos de WhatsApp com pornografia, as piadas de que se riem
só para não se sentirem excluídos. Acima de tudo, não assobiem para o lado quando um
dos vossos se comporta como um animal.
O mal alimenta-se do silêncio. E, apesar de já estarmos em 2026, as mulheres
ainda precisam da vossa voz. Nos casos de assédio, abuso e violência, obviamente, mas
também nos casos de injustiça e discriminação. Para que as meninas de hoje sejam as
últimas a ter de ouvir esta mesma velha lição.
(texto originalmente publicado na revista Visão)
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