Não deite papéis na sanita

Acontece amiúde, sobretudo nas casas de banho femininas, haver um aviso por cima do autoclismo a pedir que não se deitem papéis na sanita. Normalmente, tal sucede em cafés ou restaurantes de zonas antigas ou ribeirinhas, onde o escoamento é insuficiente e o risco de entupimento enorme. A solução é colocar o papel num balde para o efeito e contribuir para a boa saúde da canalização do local.

Ora aqui a vossa amiga, não por rebeldia, nem por querer testar a veracidade do aviso, sempre que lê tal frase, consegue ignorá-la sistematicamente. Não sei que raio de condição neurológica me afecta, mas no breve espaço de tempo entre a leitura da divisa e o término da necessidade fisiológica, o meu cérebro consegue a proeza de se distrair com as coisas mais estúpidas e ignorar o que acabou de ler. Coisas como a música ambiente que está no ar, o padrão dos azulejos, a declaração de amor eterno cravada na porta ou o constatar de que a biqueira do meu sapato está desgastada, são suficientes para me conduzir ao gesto automático de fazer precisamente o contrário do que me foi pedido.

Uma vez que sei que sofro desta condição, sempre que leio tal aviso, começo a dizer para mim própria «não deites o papel na sanita», repetidamente, como quando a minha mãe me mandava à mercearia da rua e eu ia todo o caminho a repetir mentalmente a lista de compras. Mas de nada serve. É como se o meu cérebro fizesse de propósito e sentisse prazer em me ver envergonhada por não conseguir cumprir um simples pedido que está escrito a bold a dois palmos do meu nariz. Ainda o papel vai no ar e já eu estou em sobressalto perante a inevitabilidade de vê-lo cair no sítio errado, enquanto oiço a voz irritante da minha consciência a rir-se e desdenhar de mim.

Talvez este não seja o tema que esperavam ler de uma promissora voz da literatura, mas tinha de partilhar convosco, pois tenho a impressão de que não sou a única a cair nesta armadilha mental, que por certo até terá um nome clínico. Enquanto investigo uma possível cura, deixo as minhas desculpas aos donos de todos os estabelecimentos entupidos por onde passei. Juro que não faço de propósito.