As alegrias de apanhar o bicho

O título desta crónica é claramente sarcástico. Não há qualquer tipo de alegria em apanhar COVID e estar em isolamento é muito pior do que estar em confinamento, porque nem dá para ir ao supermercado espairecer. Pois. Foi a isto que chegámos… A um mundo onde ir ao supermercado se tornou uma actividade recreativa e uma visão de liberdade. Ahhhh, os lineares cheios de cor, ahhhhh a fila para a caixa, ahhhhh a roda de um carrinho a embater no tendão de aquiles…

Bom, mas há pior. Há apanhar o bicho juntamente com os filhos. Sim. Uma família inteira a disputar o termómetro e a acabar com o stock de ben-u-ron e rolos de papel. Na noite em que me assoei quarenta e sete vezes (e isto não é um número aleatório) percebi por que razão houve assaltos ao papel higiénico no primeiro confinamento.

Mas vamos por partes. Primeiro os sintomas. Para mim, a brincadeira começou com dores no corpo, depois febre baixa e, nos dias seguintes, congestão nasal e espirros. Para os miúdos muita febre e tosse com expetoração. Ah, mas as crianças são assintomáticas. Não é verdade. A maioria das crianças não desenvolve doença grave, mas está longe de passar pelo vírus incólume. Foram quatro dias nisto. Safou-nos uma tabela onde marcávamos as horas e as dosagens da medicação e o facto de o meu marido ter saído da cama quando eu entrei. (Sim, foi ele que nos pegou…)

Segundo: comida. Não é uma febre que tira o apetite aos meus filhos. Aliás, costumo dizer que quando eles não comem o melhor é ir logo ao hospital porque é muito grave. Assim sendo, não houve abébias em relação às refeições e felizmente pudémos contar com os avós e com os vizinhos para nos abastecerem, incluindo com coisas já confeccionadas, o que foi muito útil. Um grande bem-haja para eles.

Também há que agradecer às maravilhas do streaming e aos inventores do Roblox pelas horas de entretenimento sem filtro. Costumo ser um bocado polícia do tempo à frente de ecrãs, mas nestes dias foi bar aberto. Aliás, fiquei feliz por os meus filhos não estarem limitados ao “Agora Escolha” e os desenhos animados do canal dois. Havia de ser bonito…

Adiante. Ao fim de uns dias, ficámos sem olfato e sem paladar, o que é uma experiência surreal, cuja única consequência positiva foi não ter de ouvir as criaturas pequenas a dizerem que a minha sopa não presta. Eu não tinha a noção do que era ficar sem estes sentidos. Não é nada parecido com uma constipação. É a total ausência. É inspirar fundo com uma cebola encostada ao nariz e não sentir absolutamente nada. Comer tornou-se uma actividade mecânica e monótona, em que tudo parecia esferovite, às vezes, quente, outras fria. Ainda não estamos completamente restabelecidos dessa parte, mas não nos podemos queixar, até porque há pessoas que ficaram assim durante meses. Por outro lado, é verdade que os outros sentidos se apuram para compensar. No meu caso foi o tato. Quando fui por creme na cara era como se estivesse a sentir a cara de outra pessoa. Foi no mínimo estranho.

Moral da história: apanhar o vírus é uma merda. E apanhar o vírus a três semanas de ter a vacinação completa deixa a sensação de morrer na praia. Não tivemos sintomas severos, nem passámos pela horrível experiência de necessitar de assistência médica, mas foram dias difíceis de viver. Por isso, meus amigos, não percam tempo em vacinar-se e resguardem-se. Mantenham o uso das máscaras e a desinfecção das mãos. Acima de tudo, não facilitem e deixem para mais tarde as festas, os abraços e as teorias da conspiração. O bicho ainda anda à solta por aí, com as suas variadas mutações, e todo o cuidado é pouco.

Saúde para todos!

© COVID and the Variants On Stage – By Monte Wolverton

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