Também quero ir para a rua gritar

Antes de avançar neste texto devo informar os leitores de que não me identifico com nenhum partido em particular. Defendo algumas ideias de esquerda, algumas de direita, muitas liberais. Nunca me associei a qualquer partido porque gosto da minha total independência intelectual e não quero, em nome da coerência com uma qualquer ideologia política, acabar por auto-censurar o que digo ou faço. Ainda assim, fico mais espantada (e quase ofendida) quando me perguntam se sou de esquerda do que quando insinuam que sou de direita. Talvez porque sou do Barreiro, terra vermelha de grandes excessos e extremismos. Ou talvez porque a esquerda se reveste de uma superioridade moral profundamente irritante.

De onde vem essa suposta superioridade? Para começar, do facto de se ter apropriado de quase todas as causas que considero importantes. Se és feminista és de esquerda, porque toda a gente sabe que as mulheres que não são de esquerda defendem a família tradicional, o patriarcado e a fé cristã, praise be. Se queres lutar contra o racismo tens de ser ou de esquerda ou de qualquer raça que não seja branca, de preferência as duas coisas. Se fazes greve pelo planeta és definitivamente de esquerda pois só os partidos de esquerda têm preocupações ambientais e são contra o capitalismo que é a causa do aquecimento global. Se te rebelas contra a tua entidade patronal, não só és de esquerda, como és um potencial sindicalista. Se és artista tens mesmo de ser de esquerda, uma vez que à direita ninguém defende a liberdade de expressão. Se vais a uma marcha de orgulho gay, és obviamente de esquerda e também gay, caso não tenhas reparado.

Além de se ter apropriado de causas que são de todos, a esquerda apropriou-se de tudo o que está ligado ao 25 de Abril, transformando o que devia ser uma celebração nacional num acontecimento político. Se não és de esquerda, és um saudosista da ditadura, nado numa família de fascistas, daqueles que tinham uma fotografia de Salazar na sala e tudo, logo, não podes fazer parte da festa. Aliás, qualquer pessoa (sobretudo figura pública) que não esteve presa / fugiu para o exílio / andou em reuniões clandestinas / ajudou activamente a revolução não tem nada que ver com o assunto. Porque para a esquerda só há uma maneira de celebrar: a sua – de cravo ao peito e punho cerrado, a cantar a Grândola Vila Morena. Só há uma narrativa e uma versão. Pensamento único.

Por fim, a esquerda é a única guardiã da justiça social e da liberdade. A única corrente política que defende as pessoas em geral e as minorias em particular, desde que não tenham rendimentos acima dos 30 mil euros por ano. Todos os outros são uns egoístas, que só querem ficar ricos à custa das cunhas, exploração laboral e fuga aos impostos, obviamente, porque não há outra forma de viver bem numa sociedade capitalista. A esquerda nada tem que ver com a especulação imobiliária, genros de dirigentes a beneficiar de ajustes directos, Câmaras Municipais corruptas ou empresários que pagam ordenados mínimos. Isso na esquerda não há, nem pensar, até porque, como se sabe, a ganância e a trafulhice só atacam certas cores.

No que diz respeito à liberdade, ela é intocável para a esquerda, excepto quando se trata da liberdade dos que têm ideias divergentes das suas. Nesse caso, proíbe-se, censura-se, pinta-se o mural, reescrevem-se os manuais de História e julgam-se todas as figuras históricas (menos Lenine) à luz do que é politicamente correcto no século XXI. Liberdade de expressão sempre, mas com cuidadinho. Não se pode brincar com nada nem com ninguém, excepto se forem betinhos, tias e novos ricos. Acabe-se já com as anedotas e faça-se um dicionário de sinónimos que nos ajude a falar sem ofender ninguém, porque temos de ser todos iguais. Iguais ao que a esquerda considera bom, louvável e certo. Nem um milímetro ao lado. Como se os problemas fossem desaparecer por deixarmos de usar uma palavra.

Mas e se, em vez de pretendermos ser todos iguais, aprendêssemos a viver com o facto de sermos todos diferentes? E se abraçássemos a diferença de ideias, de opiniões, de experiências, de estilos de vida, de raças e de religiões, sem moralismo, sem a mania da superioridade? Porque é a diferença que traz diversidade, pluralidade e vitalidade à democracia como ela devia ser: de todos e para todos. Uma democracia em que qualquer pessoa se sinta à vontade para ir para a rua gritar. Não será isso o que realmente importa?

One thought on “Também quero ir para a rua gritar

  1. Paula diz:

    Tão verdade este texto. Obrigada Filipa e sim o 25 de Abril é de todos e tendo eu vivido o mesmo (na altura tinha 25 anos), vi de perto a união de todos ou pelo menos quase todos, porque alguns fugiram de Portugal com medo de que algo lhes pudesse acontecer. Foram tempos que ficarão na memória para sempre. Por isso, hoje em 2021, 47 anos depois, ninguém pode dizer que o direito a festejar o 25 de Abril possa ser apenas de alguns!

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