No Abismo (conto)

Acordo em sobressalto. Como se tivesse estado submersa e viesse finalmente à superfície para respirar. Ouço um som repetitivo que não consigo de imediato identificar, mas que agora me parece o ponteiro do relógio da sala. Tic, tac. Tic, tac. Tic, tac. E, no entanto, não percebo porque haveria de acordar na sala, onde só há um sofá onde mal caibo. Não, não me parece que esteja no sofá. O sofá não me magoa as maçãs do rosto. Tento abrir os olhos devagar. Esforço hercúleo. As pálpebras estão pesadas e as pestanas parecem coladas umas às outras, como quando me esqueço de tirar o rímel. Finalmente, consigo abrir um olho e vejo a luz do sol reflectida no soalho de madeira, uma luz fosca que desenha os contornos da mobília. À minha frente está o sofá. Ali a mesa de centro. Atrás desta, entrevêem-se os pés do móvel da televisão. Estou, portanto, deitada no chão da sala. Bonito. Bom, pelo menos estou em casa. Na minha casa. Tento mexer-me, porém, nenhum músculo parece responder. Insisto, mas a cabeça começa a latejar. Decido que o melhor é deixar-me ficar aqui, com o ouvido colado à madeira, onde ressoam as vidas dos vizinhos. Estão a ver um daqueles programas com apresentadores de vozes estridentes, muitos aplausos e gargalhadas ensaiadas. Alguém abriu uma torneira e a água serpenteia agora pelos canos. Uma porta bateu. Assim soam as entranhas de um prédio.

Há quantas horas estarei aqui? Será que caí e bati com a cabeça? Só posso ter caído, porque nunca adormeço de barriga para baixo. Com enorme esforço, levanto o braço e tacteio a face, depois a testa, depois a nuca. Está tudo inteiro. Não há vestígios de sangue. Pelo menos isso. Volto a baixar o braço, pousando-o agora ao longo do corpo e noto que, aí sim, o chão está molhado. Esfrego os dedos no líquido que me rodeia. É pouco espesso. Parece água. Ou talvez seja alguma bebida que verteu de uma garrafa tombada. Se calhar entornei uma garrafa quando caí. Lembro-me de estar a beber um gin. Sim, a testa contra o vidro da janela, um copo na mão, a desdenhar daqueles que se atrevem a sair de casa nos tempos que correm. Aproximo os dedos do nariz para tentar perceber que líquido será. É urina! Que nojo! Não acredito, foda-se! Ergo o tronco com dificuldade, empurrando as duas mãos contra o chão, e tento afastar-me da poça como se esta fosse um animal venenoso. É inútil. O vestido também está ensopado e toca-me a pele, marcando-me como um ferrete, que me impede de ignorar a vergonha de acordar deitada sobre o meu próprio mijo. 

Olho em volta, como que à procura de alguém que pudesse testemunhar o meu embaraço, e nesse instante, o meu coração sobressalta-se ao ver que porta de casa está entreaberta. Será que ontem a deixei mal fechada ao entrar ou estará alguém cá dentro? Levanto-me a tremer. Contorno a poça. A minha cabeça está prestes a explodir. A cada passo que dou é como se um torno me apertasse o cérebro. Dirijo-me à porta e encosto-me desamparadamente para que feche com estrondo. Se estiver algum ladrão cá em casa já me ouviu e vai aparecer em cinco, quatro, três, dois, um… Nada. Só a dor de cabeça, que agora está muito pior. Tenho de livrar-me do vestido. O melhor é tentar tirá-lo por baixo, para não sujar o cabelo. Reparo que estou sem cuecas, mas com o sutiã. Tenho de ir tomar banho. Estou tonta. Está tudo turvo e desfocado. Amparo-me nas paredes. Olho em volta e vejo várias garrafas na mesa de centro e um cinzeiro cheio de beatas. Definitivamente, esteve cá alguém. Eu não fumo assim tanto. Ou ter-me-ei esquecido de despejar o cinzeiro nos últimos dias? Desloco-me em silêncio até à casa-de-banho e, ao passar pela kitchenette, deparo-me com as cuecas caídas junto à bancada. Que raio de sítio para as deixar… A porta da casa-de-banho está aberta. O tampo da sanita está levantado. Ah-ah! Foi um homem que aqui esteve. Talvez ainda cá esteja. Pode ter adormecido tão estrondosamente como eu e continuar prostrado na minha cama. Devia ir buscar uma faca ou qualquer coisa para me defender, mas a curiosidade obriga-me a continuar. Vou deslizando pela parede do corredor até à porta do quarto. Fecho os olhos antes de espreitar lá para dentro, desejando não encontrar ninguém. E se ele ainda lá estiver? O que devo fazer? O que hei-de dizer? Respiro fundo, decidida a entrar. Empurro a porta devagar, abro os olhos e vejo a cama toda remexida, mas nenhum corpo deitado. Que alívio. Na verdade, não sei porque estava com medo. Um assaltante não ia mijar na minha casa de banho, nem fumar na minha sala, tranquilamente, enquanto eu estava inconsciente no chão. Não. Isto foi alguém que eu trouxe para casa. Pior: para o quarto. Mas quem? Está uma garrafa de vinho semi-vazia na mesa de cabeceira. Dou vários goles, matando finalmente a sede, e deixo-me cair na cama. Cheira a sexo. 

Não sei quanto tempo passou nem se adormeci. Nos tempos que correm, é-me difícil distinguir a vigília da letargia, a sobriedade da embriaguez. É tudo difuso. Como se as memórias se entrelaçassem de tal forma que se tornam vagas. Os dias e as horas, os meses e os anos confundem-se e desmaterializam-se. Ganho coragem para me levantar e ir tomar um banho. Tenho de livrar-me deste cheiro a urina e mudar os lençóis, manchados de suor e sexo. Oh, merda! Mas que lençóis? Não tenho outro conjunto. Isso era antes, na outra casa, na outra vida. Estavam guardados num enorme gavetão, que espalhava o aroma a alfazema assim que o abria. A paciência que eu tinha para substituir todos os saquinhos a cada três meses, logo que começavam a perder o cheiro. Uma mania que herdei da minha avó. Era uma mulher dura, analfabeta, com uma mão pesada, que não hesitava em usar à mínima desobediência. Mas depois tinha destas delicadezas, como os saquinhos de alfazema. Não tenho saudades dela.

Os lençóis… Quando casei, o Rui informou-me que as camas tinham de ser mudadas ao domingo, o dia destinado a tratar da casa. Já era assim na casa dos pais dele e assim seria na nossa. Trocar de lençóis, lavar a casa de banho, passar a ferro, fazer sopa e comida para a semana, que colocávamos em caixinhas etiquetadas na arca frigorífica. Aspirar, limpar o pó, levar a reciclagem e passar o que restava da tarde no sofá. Ele triunfante, orgulhoso das suas capacidades de organização, que nos permitiam ter uma semana sem sobressaltos, mesmo que chegássemos tarde a casa, mesmo que não estivéssemos lá para dar o jantar aos miúdos. Era só aquecer no micro-ondas. Tudo em caixinhas Tudo etiquetado. Tudo no seu devido lugar. E eu a ver o dia a passar por mim, incrédula por ser protagonista daquele romance suburbano. A ver-me de fora do meu corpo. Os miúdos na rua a andar de bicicleta, as famílias a saírem para irem ao cinema, almoçar fora, qualquer coisa. Menos nós. Nós, ali, escravos da casa e daquela rotina, como se não bastassem todas as outras. E eu, o eu de verdade, etéreo e sem formas, a olhar com desdém para o meu corpo aprisionado, como hoje olho para os que passam na rua. O domingo está sobrevalorizado, dizia ele, há filas por todo o lado, se toda a gente sai o melhor é ficarmos em casa, sossegados, longe da confusão.  E ficávamos. E o meu ódio àquele dia crescia, proporcionalmente à intensidade das minhas ressacas. Porque, vendo-me obrigada à rígida rotina casa-trabalho durante a semana e prisioneira dos afazeres domésticos ao domingo, o sábado era o único dia em que podia fazer um programa qualquer. Então, aproveitava-o à grande. Começava a beber ao almoço e só parava quando me ia deitar. Ninguém nos olha de lado quando estamos na esplanada a beber três ou quatro cervejas numa tarde de sábado. Ninguém nos olha de lado se bebermos uma garrafa de vinho inteira num jantar com amigos. É suposto ser assim. Um vício socialmente aceite e até valorizado. Nunca parece mal, nem mesmo quando há excessos no comportamento. Estranho é quem não bebe. Fica tudo a olhar de lado, a tentar perceber a razão da abstinência. Deve estar doente. Ou grávida. Mais sobra! Façamos um brinde! E o sábado tornava-se lânguido e mole e vazio de tensões. E o domingo ficava cada vez mais longe, como ficam as coisas que vemos através do fundo de uma garrafa. E de repente, todos os dias eram sábado. 

Devia ter trazido mais lençóis quando me vim embora. Vendo bem, devia ter trazido mais de tudo. À parte da mobília, da televisão e de meia dúzia de tachos e panelas, esta casa não tinha nada. Agora vou ter de ir ao chinês comprar um novo conjunto. Mas espera, o chinês ainda está fechado. Merda do estado de emergência. Só se for ao hipermercado… Ou posso simplesmente lavar estes na banheira, ainda que saiba à partida que não vão secar até à hora de me deitar, seja ela qual for. Não quero saber. Posso dormir uma noite directamente no colchão, qual é o mal? Já dormi no chão. Em vários chãos diferentes. E no carro. E no banco do jardim, até acordar com uma mão a tocar-me na coisa. Ao princípio pensei que estava a ter um sonho erótico. Só quando ouvi um polícia aos gritos, a dirigir-se a mim, é que me apercebi do que estava a acontecer. Ou seja, estava prestes a ser violada no meio do jardim por um maluco qualquer, que desatou a chorar, de joelhos, as mãos a protegerem a cabeça, como se estivesse à espera de ser agredido com o bastão que o polícia empunhava. Era meio retardado, por isso, não quis apresentar queixa e deixei que o polícia o levasse com ele para tentar descobrir se tinha algum lugar para onde ir. O polícia também não insistiu, talvez por ter sentido o meu hálito. Olhou-me com pena e depois com raiva por se ter preocupado comigo. Mesmo que o gajo que me atacou não fosse atrasado, jamais apresentaria queixa. Só o trabalho de ter de ir a uma esquadra, ficar à espera da minha vez, relatar os factos devagarinho para que o polícia de serviço, em dificuldades com o programa informático, conseguisse apanhar tudo… Então, conte lá, o que aconteceu? Estava a dormir e, quando dei por mim, tinha um gajo em cima a tentar foder-me com os dedos. E conhecia o indivíduo? Não. Ele estava lá antes de adormecer? Não me lembro. Ele pagou-lhe alguma coisa? Não? Já o tinha visto antes? Acho que não. Acha, ou tem a certeza? Quem é que tem certezas de alguma coisa? Não se arme em engraçada que isto é sério. Desculpe, Sr. Guarda. Estava mesmo a dormir? Sim. E como não acordou quando ele se aproximou e lhe tocou? Estava a dormir profundamente. E dorme sempre assim tão profundamente, no meio da rua, em pleno dia? Depois de beber duas garrafas de uísque, sim.

 Encho a banheira e enfio-me lá dentro com os lençóis. Acho que o gel de banho vai deixá-los lavados. Ou, pelo menos, perfumados com aloé vera, seja lá o que isso for. Antes de haver produtos à base de aloé vera, desconhecia o cheiro de tal planta. Nunca me aproximei de um aloé vera ao ponto de lhe sentir o aroma. E na verdade, cá para mim, não cheira a nada. O gel de banho até cheira a alguma coisa, mas duvido que seja o cheiro de uma planta da família dos cactos. Isto são aromas que criam em laboratórios. Como os corantes da comida, das pastilhas elásticas e agora até das águas. O meu gel de banho cheira tanto a aloé como as pastilhas de melancia sabem a melancia. Ou seja, nada. Dou mais um gole na garrafa, que continua colada à minha mão. Sei que devia comer alguma coisa para evitar que o estômago me fique a arder, mas nem sei se tenho alguma coisa comestível cá em casa… Pronto. Decididamente, tenho de ir ao supermercado. Aproveito e compro também bolachas e cereais e sumo de fruta. Se misturar sumo no gin, sempre estou a ingerir algumas vitaminas. Ou será que não? Podia comprar umas maçãs. Maçãs duram imenso tempo, enganam o estômago e lavam os dentes. Vou comprar maçãs! Vendo bem, não sei se consigo. As luzes. As pessoas. Os corredores frios e garridos. As caixas registadoras a apitar. Já para não falar da fila à porta, porque agora só entram algumas pessoas de cada vez. Não. Esqueço as maçãs. Ergo-me para pousar a garrafa e dá-me uma náusea. Só tenho tempo de me debruçar sobre a sanita. Vomito um líquido acastanhado. Não devo ter jantado ontem.

Quando consigo parar os vómitos, afundo-me na banheira até ter a cabeça toda debaixo de água. Submersa, abro os olhos e vejo o tecto manchado de bolor. Um bolor que ondula e que, daqui, parece a superfície da lua numa fotografia a preto e branco. Volto à superfície. Repito. É relaxante este jogo. E o silêncio subaquático. Sinto-me leve nesta espécie de flutuar. Sinto-me eu, sem o corpo, sem a história. A água, no entanto, está a ficar fria. Tiro a tampa do ralo com os dedos do pé para deixá-la escoar. Com os lençóis dentro. Não tenho molas para estendê-los nem energia para pendurá-los no varão da cortina de banho. Mais logo. Seco-me com uma toalha, que também já devia ser lavada. Atiro-a para dentro da banheira. Sempre fica um bocadinho de molho no resto de água que lentamente escoa pelo ralo entupido pelos metros de tecido. Procuro uma roupa limpa no meio de toda a roupa espalhada pelo chão do quarto. Não é muita a roupa e ainda menos a que está limpa. Depois, procuro na kitchenette alguma coisa para comer. Tenho café, o que é sempre bom para a dor de cabeça, e uma lata de salsichas. Abro-a com súbita pressa e retiro uma, que coloco na boca ainda a pingar o líquido de conservação. Sei que devia fervê-la antes, mas não tenho paciência. Pronto. Agora posso continuar o meu gin até o café estar pronto. Já tenho alguma coisa no estômago. Ligo a televisão. É meio-dia, segundo o relógio do canal noticioso. 

Não me lembro quem era o gajo. Devia estar demasiado bêbeda quando lhe abri a porta. Ele vinha de máscara e perguntou se eu tinha gel desinfectante. Achei que era uma piada, mas ainda assim despejei-lhe um bocado de gin nas mãos. É álcool, certo? Quem é que alinha numa cena de sexo com desconhecidos a meio da quarentena e está preocupado com a desinfecção das mãos? Era um gajo novo, agora estou a lembrar-me. Tinha os peitorais definidos, o cabelo claro, a pele suave de quem tem menos de trinta anos. Fecho os olhos, mas não consigo ver a cara dele. Lembro-me de pensar, quando ele tirou a máscara, que era igual à fotografia do Tinder. Normalmente não são. A malta abusa muito dos filtros e depois, cara a cara, não é bem a mesma coisa. Eu própria tenho uma fotografia que tem mais de cinco anos. Ainda usava o cabelo curto. Ironicamente, foi tirada na praia pelo Rui. Só a aproveitei do pescoço para cima, porque na fotografia original estava a abraçar os miúdos. Podia ter-me esforçado mais para encontrar uma mais sexy, mas gosto do meu sorriso e do meu olhar meio sedutor naquela. Pelos visto resulta. As solicitações têm aparecido. Homens, mulheres, casais, há sempre alguém à procura de uma experiência, de uma relação, de companhia. Cada vez menos os que, como eu, só procuram sexo. Ou talvez o sucesso do meu perfil se deva à fotografia em que estou de lingerie, essa tirada em modo selfie. O meu corpo até nem está mal para quem já teve dois filhos. Pelo menos não estava quando tirei a fotografia. Já foi há vários meses. De qualquer forma, tenho de me deixar disto. Qual é o objetivo de convidar um gajo para me comer e depois não me lembrar de nada? E será que ele me viu ali no chão e nem me ajudou a levantar? Bem que podia ter fechado a porta. Ou terei caído depois de ele sair? Qual era a dele? Sou mesmo estúpida. A dele era beber, foder e bazar, obviamente. Claro que nesta altura do campeonato, só a malta com pancada é que aceita encontros do Tinder. Era fruta a mais um gajo daqueles sentir-se atraído por mim e ser normal. Agarro o telemóvel e abro a aplicação. Já não está aqui o perfil dele. Fez “unmatch”. Cabrão. O “unmatch” é o equivalente moderno ao “no dia seguinte não ligou”. Será que sou uma queca assim tão má? Quero lá saber. 

Aproveito que tenho o telemóvel na mão para ver se tenho mensagens. Não tenho. A última foi do psiquiatra da clínica de reabilitação e já tem alguns dias. Não respondi. Também tenho aqui algumas de publicidade e promoções. Estou farta desta malta que nos saca o telemóvel a pretexto de nos contactarem apenas em último caso, mas que depois vende a base de dados a outras empresas. Se eu nunca dou o meu telemóvel em lado nenhum, como é que o têm? Sacanas. Verifico as chamadas. Também não há nenhuma nova. Últimas chamadas recebidas: Mana, Clínica, Gena. A da Gena também é da semana passada. Contou-me que a empresa mandou toda a gente para casa assim que isto começou. Alguns estão em lay-off. E eu com vontade de lhe responder, mas que merda tenho eu que ver com isso? Estou há seis meses de licença sem vencimento, por mim podem ir todos para a puta que os pariu. Acho que lhe disse mesmo isto. Não me deve voltar a ligar tão cedo. 

Sirvo-me de um resto de uma das garrafas que está em cima da mesa e colo a testa na janela da sala, no exacto ponto onde há uma marca oleosa da minha pele, deixada no dia anterior. E no dia antes desse. E nos outros todos também. Gosto de deixar a testa suportar todo o meu peso contra o vidro frio. Alivia-me a dor de cabeça ao mesmo tempo que me permite ter um vislumbre do que se passa lá fora, agora quase nada. É estranho ver tão pouca gente na rua. Ainda há semanas era um rodopio de gente a qualquer hora do dia. Agora, só vejo um homem à espera do autocarro, um casal a passear o cão e uma velhota a atravessar a estrada para ir à mercearia. Ou à farmácia. Das duas uma, que também com aquela idade não pode ir a mais lado nenhum. Mais ninguém. Prédios e passeios e estradas vazias. Na rua paralela passou um carro. Uau. Um carro. 

Detenho-me na velhota. Mora no prédio da frente. Para ela não há o antes da pandemia. A vida dela já era assim. Solidão, uma saída por dia para ir à mercearia ou à farmácia, uma coisa ou outra, para ajudar a passar o tempo, mais solidão, dormir, repetir. Hoje leva o pão, amanhã leva a fruta, no outro dia o café. Para quê levar tudo ao mesmo tempo? Isso é para quem tem pressa. A velhota não tem pressa. Tem o contrário da pressa. Tem toda as horas do dia para preencher. Tal como para ela, para mim nada mudou. Continuo a acordar ressacada, a tentar sobreviver às primeiras horas do dia, a sair para me ir sentar no banco de jardim e sentir o sol a queimar-me a cara. Estou-me a cagar para as fitas amarelas que põem nos bancos, como se fossem cenários de crime. Até agora ninguém veio chatear-me. Parece que não sou do grupo de risco. Um dia igual ao dia anterior, ao mês anterior, ao ano anterior. Bebo até começar a esquecer-me da outra vida. Aquela vida triste e sufocante em que todos esperavam qualquer coisa de mim, a toda a hora. Os filhos, os colegas, os amigos, o Rui. E eu a dar tudo a todos, sem saber bem o quê. Eu a fingir que gostava do que fazia. Eu a fingir que sentia aquele amor incondicional pelos miúdos que é suposto uma mãe sentir. Eu a fingir que estava grata por ter um bom marido. Eu a fingir que tinha muita sorte por ter uma casa e um emprego e amigos. Amigos que não me diziam nada, com quem nem sequer gostava de estar. Eu farta de toda a gente. Eu a ser a alma da festa quando, por dentro, desprezava todos à minha volta. Eu a querer estar sozinha. Eu a ficar para trás. Eu a fingir tanto que já não sabia o que era verdade. Eu a querer qualquer outra coisa, até me esquecer sequer do que queria. 

Ainda bem que me mandaram para casa com uma licença sem vencimento. Ao início, fiquei furiosa. Nunca fui aquilo a que chamam de empregada exemplar, mas também nunca descurei o meu trabalho. E não chegava atrasada, por mais ressacada que estivesse. Tinha tudo controlado. Tinha a minha garrafinha para ir dando uns golinhos na casa-de-banho. Não chateava ninguém. Achei indecente, depois de quinze anos a dar o litro. Mas agora percebi que foi o melhor que me podia ter acontecido. Nem sei se quero voltar. Primeiro, porque o meu regresso está condicionado à minha recuperação, como eles dizem. Depois, porque agora posso finalmente fazer o que quiser e ir onde quiser, sem dar satisfações a ninguém. O luxo da verdadeira liberdade. Se bem que, na verdade, acabo por não ir a lado algum. Podia ir à praia olhar o mar, podia ir dar uma volta pelo centro da cidade ou fazer uma caminhada na serra. Mas o que ganhava com isso? Dores nas pernas, bolhas nos pés para, provavelmente, no dia seguinte, não me lembrar de nada. Prefiro esta janela ou o banco de jardim. E uma garrafa. Uma garrafa não me questiona. Uma garrafa não me olha de lado. Uma garrafa não espera nada de mim. E assim, quando não me lembrar do que fiz no dia anterior, não fico angustiada, porque sei que não fiz nada. Absolutamente nada.

Começou a chover. Que merda… Já não vou poder ir ao jardim. Terei de me contentar com a janela. Pelo menos até ter coragem para sair. Vou ter mesmo de sair. Preciso de cigarros. E de álcool. Já agora compro a merda das maçãs. Mas não vou ao supermercado, isso é que não! Vou antes à loja dos indianos. É mais escura, mais pequena, mais segura para quem, como eu, quer evitar outros seres humanos. Não por medo do raio do vírus, mas porque não me acrescentam nada. Além disso, os indianos tratam toda a gente com indiferença, como se tanto lhes desse estarmos ali ou não. Não fazem perguntas, nem sequer para averiguar se queremos ou não queremos saco, factura, um folheto promocional. Não sei se é por feitio ou por não falarem português. Para mais, nas suas lojas raramente há outros clientes ao mesmo tempo. Ninguém para me olhar de alto a baixo, para me julgar, para tentar adivinhar porque tenho a cara inchada e ando de óculos escuros. Luto? Depressão? Violência doméstica? Um olhar para as minhas compras e a empatia transforma-se em desprezo ou pena ou qualquer outro sentimento mesquinho de quem se sente superior. Estou-me a cagar para o que pensam de mim, mas não gosto que fiquem a olhar. Os indianos nem sequer nos olham. 

Lembrei-me agora que não tenho guarda-chuva. Que se lixe. Verifico se o cartão multibanco está dentro da capa do telefone, pego nas chaves e saio de casa. Está vento. A chuva bate quase na horizontal. Um lindo dia de primavera. O indiano não me deixa entrar porque não tenho máscara. Dito-lhe uma lista para ele aviar com a sensação de que vai trocar metade das coisas. Desde que não se engane na marca do tabaco, está tudo bem. Não aceita multibanco. Tenho de ir até ao fundo da rua. Foda-se, só a mim. Pelo menos não há fila. No outro dia fiquei aqui meia hora para levantar vinte euros. Tudo por causa de um homem que decidiu pagar todas as contas do mês naquele preciso momento. Não estava ninguém atrás de mim, pelo que, bem podia ter-me deixado passar à sua frente. Eu já fiz isso várias vezes. É só para levantar? Então passe que eu vou demorar um bocadinho. Chama-se civismo. Mas aquele não, quanto mais eu bufava mais ele demorava a pressionar os números. De propósito. Mais um atrasado mental. Volto à loja do indiano, entrego-lhe as notas e peço que deixe o troco no saco, se não já sei que as moedas vão cair para dentro do forro do casaco. Tenho o interior da algibeira roto. Não tenho agulha para coser. Mesmo que tivesse, acho que não ia ficar nada de jeito, porque na verdade não sei coser. Quando tinha alguma coisa para arranjar dava à minha sogra, ela sim uma mulher prendada. Por vezes nem precisava de lhe dizer. Ela lá descobria as peças que precisavam de arranjo, botões ou o que fosse. A ver se as costureiras reabrem. Se bem que, quando reabrirem, já não vou precisar deste casaco. Daqui é nada é verão. Os jacarandás já floriram.

Regresso a casa, maldizendo a chuva que não dá tréguas, e sorrio perante a incerteza do que irei encontrar nos sacos. Aposto que o indiano se enganou em metade das coisas. Dispo o casaco e as calças, ensopados, e começo a retirar as compras, uma a uma. Duas garrafas de gin, certo. Um pack de cerveja, Certo. Três maços de Marlboro. Certo. Um pacote de bolachas Maria. Errado. Era água e sal. Eu não disse? Quatro chamuças. OK, aceito. Eu só disse salgados. Um quilo de maçãs. Certo. Quatro pacotes de sopa em pó. Não era preciso serem todas de ervilhas, mas está bem. Um pacote de sumo de fruta. Certo. Uma embalagem de Estrelitas. A sério? Há adultos que comem Estrelitas? Coitado, se calhar são os cereais de que ele gosta. Vá, não foi assim tão mau. Só errou as bolachas. O resto aceita-se. Disponho tudo em cima da bancada. Agora não me apetece arrumar nos armários. Abro uma cerveja. Está morna, mas vai melhor do que o gin para acompanhar as chamuças. São picantes como a merda. O que até é bom. Faz-me sentir alguma coisa.

A vizinha de cima está a tocar piano. Vivo aqui há um ano e nem sabia que ela tinha um piano. Passa horas naquilo. Sempre as mesmas músicas. Não conheço nenhuma. Nunca me interessei por música clássica. Aliás, nunca me interessei por nenhuma música em especial. Prefiro ouvir rádio e não ter de decidir. Ouço o que está a dar e pronto. Se não gosto, mudo de estação. Simples. Não percebo como alguém consegue aprender a tocar piano. A vizinha toca cerca de duas ou três horas por dia desde que isto começou e continua a não soar nada profissional. É sempre a mesma música, porém, está constantemente a enganar-se e a recomeçar. Deve ser mesmo difícil. Dois meses e não consegue decorar a merda de uma música? Admiro as pessoas que aprendem coisas realmente difíceis. Como se a vida já não o fosse. São tantos os obstáculos, os desgostos, as desilusões, e o ser humano, em vez de se contentar em sobreviver à merda em que está metido, ainda se põe a aprender a tocar piano, ou a programar, ou a falar alemão. É por isso que acho que nascemos para sofrer. E quando não sofremos, inventamos coisas que nos causem sofrimento. Mas pronto, o som do piano até não é desagradável.

Noutro apartamento qualquer há um bebé que passa a vida a gritar. Faz birras por tudo e por nada, o insuportável. Detesto bebés. Nem aos meus achei graça, quanto mais aos dos outros. Antes de isto acontecer, o puto devia passar o dia na creche, pois nunca o ouvia. Agora é um inferno. E o pai, que deve estar a trabalhar a partir de casa, para fugir da gritaria do seu rebento, vem com o portátil para as escadas. Ora as escadas fazem eco, não é? Que falta de noção. É nesta altura que costumo ir para o banco do jardim. Ao menos lá ouço os pássaros, o vento a passar por entre as árvores, um autocarro muito ao longe, só a lembrar que não estamos no campo, que isto ainda é uma cidade, que ainda há uma espécie de vida. Antes de isto acontecer, era o jardim que tinha barulho a mais e a casa barulho a menos. Agora é o contrário. Acho que foi a única coisa que mudou. Mas hoje chove, não há jardim. Tenho de aguentar os vizinhos e as suas vidinhas. 

Bebo outra cerveja e sinto-me finalmente bem. A dor de cabeça passou, o ardor no estômago também. Levanto-me para ir estender os lençóis e a toalha no varão da cortina de banho. Com esta humidade, nem daqui a dois dias estão secos. A minha mãe bem que podia ter comprado uma máquina de secar. Como é que ela fazia durante o inverno? Luto com os lençóis molhados, pesados, embrulhados. Foda-se, que ideia tão triste. Bem podia tê-los deixado na cama até estar um dia de sol. Mesmo sem molas podia estendê-los na corda. Sou mesmo burra. Se calhar secavam mais depressa pendurados nas cadeiras da sala. Torno a tirá-los. Disponho as cadeiras em fila e estendo o lençol por cima. Quando este secar estendo o outro. Fiquei cansada. Preciso de um gin. E de um cigarro. Devia ter chamado o técnico da máquina de lavar roupa antes de isto ter começado, que isto de lavar roupa na banheira está a tornar-se ridículo. Mas também, como é que eu ia adivinhar? Como é que alguém ia adivinhar?

Mudei-me para esta casa porque era o único sítio onde não conhecia ninguém. Depois da minha mãe morrer, ficou vazia durante tantos anos, que quando cheguei quase nada funcionava. As torneiras custavam a abrir, as lâmpadas estavam todas fundidas, a televisão só dava chuva. A minha irmã queria vender, eu queria alugar e por isso não fizemos nem uma coisa nem outra. Calhou bem. Se não, tinha de estar a viver com ela, o que seguramente ia dar merda. Nunca nos demos bem. Talvez devido à diferença de idades. Quando éramos pequenas, ela via-me como uma fedelha, que ainda queria brincar com bonecas numa altura em que ela já queria “brincar” com rapazes. Apenas me usava quando precisava de alguma coisa. Dava-me gomas para eu não contar aos nossos pais as asneiras que ela fazia, levava-me para casa das amigas apenas para servir de cobaia nas suas brincadeiras maquiavélicas, deixava-me entrar no quarto dela para depois me obrigar a arrumá-lo, enfim, acho que nunca suportou o meu nascimento, o que foi evidente ao fim de uns meses da minha vida, quando me tentou asfixiar com uma almofada. Os meus pais contavam a história num tom cómico e ligeiro, como se de uma simples brincadeira de crianças se tratasse. Mas eu fiquei-lhe com algum medo e, ainda hoje, acho que se pudesse ela matava-me. Só me liga para me dizer que a casa não é minha e que se quero continuar aqui tenho de lhe pagar uma renda. A conversa acaba sempre com um “o que vale é que, a beberes assim, não vais durar muito”. Se calhar tem razão. E nesse caso espero que seja ela a encontrar o meu corpo, já em avançado estado de decomposição, para que essa imagem a atormente para o resto da vida.

O problema com esta casa é que agora conheço toda a gente. Aliás, conheço mais gente do que conhecia no bairro onde vivia antes. Conheço as pessoas do meu prédio, do prédio em frente, do prédio ao lado, os comerciantes, os visitantes, as empregadas. Se ao menos me interessassem as pessoas… E o pior é que toda a gente me conhece também. Sobretudo as velhotas, que me olham de lado, não por me verem tantas vezes a cambalear ou a lutar com a fechadura da porta, mas porque não tenho um homem. Incrível como em pleno século XXI o preconceito da família tradicional persiste, não é? Será que não percebem que é a família tradicional que nos sufoca, que nos condiciona, que nos obriga a interpretar papéis para os quais não temos o menor jeito ou interesse? Deixem as mulheres serem mulheres. Não mães. Não filhas. Não esposas. Só mulheres. Pessoas. 

Sirvo-me de mais uma dose de gin. Não sei que horas são, mas o céu indica que o dia está a terminar. Não sei que dia é, porque todos os dias são iguais. Não há dias da semana ou fim-de-semana. Não há obrigações ou descanso. Na verdade, sou como os pássaros que continuam a chilrear e a voar pela cidade indiferentes a tudo, inclusive à pandemia. Quem diz pássaros, diz qualquer outro animal, excluindo o homem. Os animais nascem, aprendem a comer, a proteger-se e a acasalar, e pronto. Todos os dias vivem. Seja domingo, seja feriado, seja verão ou inverno, faça chuva ou faça sol. Não cobiçam, não têm ambição, não sofrem de amor, não fazem planos, não criam expectativas, não cobram, não mentem. Só vivem. Sinto inveja dos pássaros, que, para mais, voam. 

Volto a encher o copo e ligo outra vez a televisão. Felizmente, desta vez não estão a dar notícias. Parece que agora só sabem dar notícias. E novelas, porque os dramas dos outros são sempre mais interessantes do que os nossos. Ficção para nos alienar da realidade. Para nos distrair dos problemas. Para acharmos que há algum sentido nisto e muitos finais felizes. Para isso, prefiro o álcool. Bem mais eficaz no propósito de nos anestesiar. 

O telemóvel está a tocar. Olho de longe para o ecrã. É o Rui. Não atendo. Não me apetece falar. Muito menos responder às perguntas sempre iguais. Como estás? O que tens feito? Precisas de alguma coisa? Voltaste a falar com o psiquiatra? Sempre a mesma merda de conversa. Agora enviou uma mensagem. «Está tudo bem?». É melhor responder. Não quero que me apareça aqui de repente por pensar que me aconteceu alguma coisa. Coitado. Preocupa-se. Afinal, como ele próprio diz, sou a mãe dos filhos dele. Ainda antes de eu sair de casa, tentou convencer-me a ir para uma clínica de reabilitação. Fui a duas consultas, mas nunca autorizei o internamento, porque nunca quis deixar de beber. Fui bem clara nesse ponto com o psiquiatra, aliás. Não percebo porque continua a enviar-me mensagens ao fim de tanto tempo. Se calhar dava-lhe jeito aqueles setenta euros da consulta. Se calhar é o Rui que lhe pede para ligar. Mas não adianta. Gosto de beber, quero beber, sempre bebi. Logo na escola secundária, havia garrafas de vinho nas mesas de todos os jantares de turma e eu nunca hesitei em experimentá-las todas. Na altura, para afastar a timidez. Depois para afastar outras coisas. O medo, o desgosto, a tristeza permanente. Não bebia todos os dias como agora, mas bebia. E ficava logo sorridente, espirituosa, alguém que todos gostavam de ter por perto. É assim que as pessoas me recordam. Porque não estavam lá a cada manhã, quando eu não queria sair da cama. Só o Rui. Mas até dele eu conseguia esconder a minha luta permanente. Foi o álcool que me salvou. Foi com ele que consegui viver como toda a gente espera que se viva. Encontrar um emprego, uma casa, um marido e filhos.

Quando saí definitivamente de casa, o Rui parou de insistir com a história da clínica mas começou com a tentar convencer-me de que o alcoolismo é apenas falta de controlo. Mas não temos todos falta de controlo? A vida não pode ser controlada. Acontece e “desacontece”, sem nos pedir licença. Quem acreditar que consegue controlar o que quer que seja está bem lixado. E o Rui insiste, afirmando que admitir que somos alcoólicos é o primeiro passo para a cura. Mas quem disse que me quero curar? Para quê estar sóbria? Quem quer estar sóbrio num mundo como este? Deixame em paz! Pára de me tentar ajudar, quando não pedi ajuda. Eu estou bem. E eles também estão bem. Contigo. Só contigo. Sempre foste um bom pai. Nasceste para ser pai. Então, sê-o e não me chateies. Lembras-te como ficaste feliz quando te disse que estava grávida? Como te empenhaste para escolher o melhor berço, o melhor carrinho, o melhor intercomunicador? As vezes em que não pediste sobremesa para que eles pudessem pedir? As vezes que me afastaste para eu não lhes bater? Lembraste? Eles não precisam de quem não os quer. Mesmo que não o saibam ainda. Um dia vão perceber que é melhor assim. Deixa-me em paz! Deixem-me todos em paz!

Volto à televisão. No canal dois está a dar um filme a preto e branco. Adoro filmes a preto e branco. Têm uma certa inocência. A inocência de os seus autores e protagonistas não saberem, quando os fizeram, o quão fodidos estamos hoje. Se bem que na altura, quem os fez e quem os viu, provavelmente também achava que estava fodido. E se calhar também olhavam para os filmes mudos com a mesma sobranceria. O tempo tem dessas coisas. Faz-nos perguntar como é que era possível viver assim ou vestir assado. Rimo-nos dos outros, quando na verdade ninguém tem razões para rir. 

Desde que há homens, o mundo esteve sempre fodido. Não acredito que tenha havido algum tempo, lugar ou civilização que tenha vivido em paz. E quando digo que hoje estamos fodidos, não me refiro à merda do vírus. Refiro-me a tudo o resto. Está tudo mal. Está tudo errado. Mas depois dizem que eu é que estou doente, que eu é que me devia tratar! Pobres ignorantes, que ainda têm esperança. E sonhos. E ambições. Não percebem que não são nada? Não somos nada. E em nada nos tornaremos. Até não restar nada.

Custam-me focar o ecrã. Não consigo acompanhar o enredo. Se calhar é porque não vi do início. Ou porque me perdi a meio. Então, este não tinha morrido? Percebo agora porque inventaram as novelas. Levanto-me e fico feliz por já estar bastante embriagada. Bebo outro gin. Fumo outro cigarro. Encosto a testa à janela e fico a observar a rua, que continua vazia. A chuva fez do asfalto um espelho a tremeluzir. Mas como não há carros nem os neóns coloridos das lojas, fica tudo como no filme: a preto e branco. Bebo outro gin. Fumo outro cigarro. Olho por cima do ombro para o tecto da sala. Nunca gostei deste candeeiro. Abajures de porcelana com flores mal pintadas. Qualquer dia compro um candeeiro novo. Volto ao espetáculo no asfalto. Não sei há quanto tempo estou aqui. Não sinto o corpo. O filme há muito terminou. Está a dar anúncios de televendas. Tenho a sensação de que se me desencostar agora da janela vou cair, mas tenho de desligar a televisão. Não aguento ouvir outra vez o «ligue já!». Bebo outro gin. Fumo outro cigarro. Agora sentada à mesa, no lugar onde me costumava sentar quando vinha almoçar com a minha mãe. Pescadinhas de rabo na boca com arroz de tomate. Era o meu prato favorito. Nunca mais voltei a comê-lo. Ninguém as faz como ela fazia. Estaladiças e… Reparo agora que está aqui um lençol pendurado nas cadeiras. Porque é que está aqui um lençol? Puxo-o para mim. Um pouco húmido, mas nem por isso menos apetecível. Embrulhome nele e deito a cabeça sobre os braços. Deixo-me cair no abismo.

Acordo em sobressalto. Como se tivesse estado submersa e viesse finalmente à superfície para respirar. Ouço um som repetitivo que não consigo de imediato identificar, mas que agora me parece o ponteiro do relógio da sala. Tic, tac. Tic, tac. Tic, tac. Marteladas no meu cérebro. Abro os olhos devagar, como se isso impedisse que a dor de cabeça desperte. Tenho sede. À minha frente, a janela da sala enquadra o azul-pálido do céu. Já é dia e parou de chover. Vou poder ir ao jardim.

Filipa Fonseca Silva

Maio 2020

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