O Expresso / Caras

No mundo actual, uma das coisas de que mais precisamos é de jornalismo a sério. Não sei se tal coisa existe ou se é uma ideia romântica assente na recordação de episódios como Watergate, mas num mundo de “fake news” e teorias da conspiração vomitadas nas redes sociais é importante haver meia dúzia de títulos que nos apresentem “estórias” bem escritas, investigadas e relevantes. O Expresso, para mim, era um desses títulos.

Sou leitora do Expresso desde os quinze anos. Gosto do formato, da periodicidade, dos diferentes pontos de vista apresentados através dos seus cronistas, de um certo afastamento em relação a temas sensacionalistas. Durante todos estes anos, já vi o Expresso no seu melhor e a andar um bocadinho à deriva. Já fui leitora assídua e leitora sazonal. É normal e saudável. É sinal de que vai mudando um pouco, adaptando-se aos novos temas e leitores. Ao longo de todos estes anos, já li de tudo no Expresso. Mas nunca tinha lido uma peça tão descabida como a que li esta semana.

Refiro-me à entrevista com a actriz Júlia Palha. Não se trata apenas de uma entrevista, trata-se da capa da Revista. A primeira pergunta que um leitor do Expresso que, corrijam-me se estiver errada, não é maioritariamente um consumidor de telenovelas portuguesas, se coloca é “quem é a Júlia Palha?”. A resposta está na chamada de capa: «é a protagonista da nova novela da SIC. A atriz e modelo conta, aos 22 anos, com uma legião de seguidores nas redes sociais». Estamos esclarecidos. Mas o que terá feito esta jovem actriz de tão importante para merecer ser a capa da Revista (lembro que as últimas capas foram Obama, Biden, Francisco Sá Carneiro- filho)? Ganhou algum prémio? Sofreu uma transformação física extraordinária? Foi escolhida para um mega-produção internacional? Não. É apenas a protagonista da telenovela da SIC que vai estrear em Janeiro.

Antes de continuar, devo deixar claro, que o meu problema com esta peça e esta capa, não é a Júlia Palha. Não conheço o trabalho dela como actriz, mas pelo que li, percebo que é uma jovem mulher com talento e as ideias no lugar.  Como feminista e defensora do empoderamento das mulheres, fico feliz por ver mulheres nas capas de revistas que não sejam de moda e fico a torcer pela Júlia. O meu problema é a irrelevância desta entrevista para lá da promoção da telenovela da SIC.

Ao início ainda pensei que a telenovela fosse apenas o mote para a conversa. Que fizessem três ou quatro perguntas sobre o assunto e depois não se falasse mais nisso. Só que não. Esta entrevista parece ter sido escrita por um jornalista esquizofrénico que, num momento escreve para o Expresso, mas logo a seguir para Caras.  É que a entrevista é entrecortada por considerações completamente fora do contexto e que servem apenas para falar da telenovela que aí vem. Por exemplo, logo depois da resposta da Júlia sobre crescer numa quinta, há o primeiro “à parte” do jornalista, escrito a itálico, que começa por contar que o pai da Júlia deixou de fumar quando ela lhe pediu aos dez anos, passa para a separação dos pais e logo para esta pérola: «enquanto batia texto para uma cena da novela “Serra”, da SIC, surgiu-lhe uma dúvida de quem não deixa passar quaisquer pormenores. “A empresa de queijos chama-se Vale de Fraga ou Vale da Fraga?, pergunta ao director de projecto, Jorge Quiroga, sobre o negócio que os pais gerem na ficção. É Vale da Fraga, tal como a Casa da Fraga, onde viveu o primeiro habitante das Penhas Douradas. É pelas paisagens da região que passa grande parte da próxima grande aposta da SIC generalista.» Hã?

A entrevista prossegue com perguntas sobre a infância, as tradições familiares, como as touradas, a educação de crianças (!?!) e logo outro “à parte” do jornalista sobre o cabelo da Júlia, com citações da cabeleireira que está a penteá-la, incluindo explicações sobre como esticar o cabelo e que produtos usar, e as indicações que Júlia lhe dá sobre o penteado da sua personagem «Fátima, em breve protagonista da telenovela “Serra”». Uma coluna inteira com isto. Como se não bastasse, chegam ainda as perguntas sobre a telenovela em si e mais dois “à partes”. O primeiro, onde o jornalista fala do visual da personagem que Júlia está a interpretar e de como foi difícil filmar na Serra da Estrela e mudar de roupa dentro de uma carrinha de produção com as portas abertas por causa do “bicho”; o segundo, onde se mostra como a produção está a tomar todas as medidas de prevenção do Covid durante as filmagens, com testes PCR e corte de contacto entre as várias produções da SIC, já agora, mais um pouco de publicidade para a outra novela “Bate Coração”.

Mais duas perguntas sobre o futuro da actriz e a entrevista acaba, mas não a minha estupefacção. No final, não percebi se João Miguel Salvador introduziu estes “à partes” a gozar, por ter sido obrigado a escrever sobre a novela, se foi alguém do Grupo Impresa que colocou os “à partes” à sua revelia, ou se a peça foi, de facto, originalmente escrita para a Caras e depois, já agora enfiamos isto no Expresso. A culpa nem sequer é dele. Acima dele há um editor, um chefe de redacção, um director. É que nem falharam as legendas das fotografias com a marca da roupa que Júlia usou na sessão fotográfica e a publicidade ao Hotel onde a sessão fotográfica foi tirada. Foram dez páginas disto, caros leitores. Dez páginas de promoção à nova telenovela.

Volto a dizer: o mundo de hoje precisa de jornalismo a sério. Fazer publicidade descarada, mascarada de peça jornalística não é jornalismo. Não é o Expresso que conheço há quase trinta anos.  É um insulto à inteligência dos seus leitores. Da minha parte, talvez por ter formação académica em jornalismo e saber bem o que é um código deontológico, senti vergonha alheia. E fiquei sem vontade de voltar à papelaria no próximo fim-de-semana.

3 thoughts on “O Expresso / Caras

  1. Luís Miguel Correia diz:

    Também li a peça sobre a jovem atriz. Nada contra a miúda, que se vai destacar numa nova geração cujas expressões de talento são diferentes dos formatos anteriores.
    Óbvio que o Expresso fez um frete aos patrões, mas isso é o menos grave, não tem nada de inédito. Grave é, do meu ponto de vista, ser o registo da peça um sinal dos tempos em que vivemos, com muito do conteúdo de publicações de referência sujeitos a uma independência ilusória. Atualmente é um luxo ler um jornal em papel. Há dias perguntei a um jovém de 20 anos se já alguma vez tinha lido um jonal. “Nunca” – nem quis experimentar. E é um rapaz com uma cultura fora do vulgar para a sua geração. Mas é uma cultura diferente. O Mundo está a mudar de forma a deixar as referências do pessoal nascido no segundo e no terceiro quarteis do século XX como arqueologia. Não me admiro que muita gente tenha comprado o Expresso pela capa da Júlia Palha. A cultura e o jornalismo estão mais ligeiros. O mundo é feito de mudança desde sempre, só que agora notamos mais, na pele… E o Expresso não tem nada a ver com os primeiros tempos. Comecei a ler o Expresso desde o primeiro número. Não está na sua melhor fase. Nem nós nem os vírus por aí à solta. LUÍS MIGUEL CORREIA

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