Os donos disto tudo

Mais uma vez desde que começou a pandemia, o governo impõe medidas desmedidas que, ao invés de darem confiança às pessoas, fazem-nos duvidar das suas intenções ou, pelo menos, questionar quais são os lobbies que mandam mais.

O lobby dos hipermercados foi um dos grandes beneficiados desta pandemia e, no novo estado de emergência que estamos a viver, volta a sê-lo. O mais engraçado é que nem precisam de vir para as ruas ou para os jornais reclamar. Penso que um levantar de sobrancelha é suficiente para colocar todo o governo em sentido e abrir as respectivas excepções.

Ora se o estado de emergência serve para que as pessoas se mantenham em casa, não visitem a família, não se juntem à mesa de um restaurante, porque é que os hipermercados hão-de continuar abertos? Ah, e tal, as pessoas precisam de comer. Certo. Ah e tal, há muita gente que trabalha a semana inteira com horários complicados e só consegue fazer compras ao fim-de-semana. Sem dúvida nenhuma. Mas acontece que os hipermercados, não vendem apenas comida. Os hipermercados vendem roupa, brinquedos, electrodomésticos, livros, produtos de beleza, material escolar, material de bricolagem e de jardinagem, refeições prontas, loiça, artigos de decoração, bebidas alcoólicas e muito mais.

Nos últimos vinte anos, os hipermercados trouxeram muitos empregos, mas precários, horários de trabalho alucinantes e a diminuição drástica das margens de lucro dos produtores. Têm sido os maiores responsáveis pelo desaparecimento do comércio tradicional e pela falência de dezenas de negócios, cujos produtos ou ideias copiam em massa e vendem a metade do preço. Neste momento, todas as marcas que não são deles, vergam-se às suas vontades porque sabem que precisam daquele canal de vendas, aberto dezasseis horas por dia, onde as pessoas entram para comprar bens essenciais mas acabam por comprar tudo o resto. Até as editoras sabem que um livro só terá sucesso se for vendido nos seus escaparates!

Nos próximos dois fins-de-semana, que por acaso até coincidem com a altura em que a maioria das pessoas começa a fazer as primeiras compras de Natal, todo o comércio e restauração estará fechado a partir das 13h e a maioria dos estabelecimentos comerciais não pode abrir antes das 10.  Mas vamos poder ir todos fazer compras aos hipermercados entre as 8h (6.30h para a Jerónimo Martins!) e as 22h.

Gostaria de ver o governo proibir os hipermercados de venderem qualquer produto que não seja “alimentar ou de higiene para pessoas e animais” durante o horário em que todos os outros estabelecimentos são obrigados a fechar.  Gostaria, mas afinal quem é que manda nisto tudo?

«Se te espetam uma faca na barriga, ao menos tenham a decência moral de te mostrar uma cara conforme a ação assassina, uma cara que ressumbre ódio e ferocidade, uma cara de furor demente, até mesmo de frieza desumana, mas, por amor de Deus, que não te sorriam enquanto estiverem a rasgar as tripas, que não te desprezem a esse ponto extremo, que não te dêem esperanças falsas, dizendo por exemplo, Não se preocupe, isto não é nada, com meia dúzia de pontos ficará fino como antes…»

In A Caverna, José Saramago.

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