Resoluções de ano novo

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Hoje é o dia de todas as resoluções. O pretexto que o calendário nos dá para pensarmos nas coisas que gostávamos muito de alcançar mas que passámos o ano inteiro a adiar. A inscrição no ginásio, o jantar com amigos de infância, deixar de fumar, de comer carne, de beber coca-cola, desocupar o quarto das tralhas, embarcar numa viagem, mudar de emprego, aprender a falar inglês, adoptar um animal, ter um filho, comprar uma bicicleta, aderir a um clube de leitura, plantar uma árvore, andar menos de carro, fazer a maratona, ter aulas de culinária, de astronomia, de karate. Estamos confiantes, somos ousados na escolha, não queremos deixar nada de fora, porque vem aí um ano novo e ainda por cima uma década nova, e se é para ser, que seja agora.

A determinação cresce enquanto escrevemos as resoluções num papel ou pensamos nelas ao mesmo tempo que tentamos não nos engasgar com as passas, porque são doze e nem gostamos de passas, mas tem de ser. Amanhã teremos doze meses de folhas em branco para preencher com tudo aquilo a que, na euforia do momento, aumentada pela ingestão de álcool e comida, nos propusemos. Sentimo-nos invencíveis e prontos para o que der e vier. Tudo para, em menos de nada, nos vermos agrilhoados pela rotina e pelas obrigações, que é muito giro sonhar mas alguém tem de pagar as contas, e acabarmos por adiar a coisa por umas semanas, quem diz semanas diz meses, que está quase a vir o bom tempo. De repente já é verão e, ao olharmos para trás, as resoluções que nos enchiam de esperança, enchem-nos agora de culpa por não termos cumprido nenhuma. Afinal é um ano igual aos outros, só mudaram os algarismos do calendário, o melhor é não pensar mais nisso.

A razão para este sentimento desolador é chamarmos a esta lista infindável de sonhos adiados, precisamente, resoluções. Uma resolução é algo muito definitivo, que nos inunda o subconsciente com o peso da obrigatoriedade. Ao início, funciona como incentivo a não voltar a adiar as coisas, mas, a longo prazo, torna-se um fardo que apenas nos faz sentirmo-nos mal connosco próprios. Sentimo-nos preguiçosos, procrastinadores, autênticos falhados, sobretudo em comparação com todas as pessoas que fazem inúmeras coisas fantásticas nas redes sociais. Toda a gente tem vida menos eu. Toda a gente viaja menos eu. Toda a gente tem sucesso menos eu. Toda a gente é feliz menos eu.

Então e, se este ano (além de nos afastarmos das redes sociais que nos mostram uma vida tão falsa quanto os filtros que a pintam), em vez de fazermos resoluções, pensássemos em intenções? Uma intenção é uma vontade, um propósito, um projecto, e isso faz toda a diferença. Porque os projectos podem ser alterados, melhorados e até abandonados se tiver de ser. Podem ter um prazo, mas este não tem de estar limitado a 365 dias. Possivelmente não vou aprender inglês num ano, mas se calhar consigo aprender em dois ou três. Talvez não consiga poupar para ir às Maldivas, mas o que tenho chega para quinze dias a explorar a Costa Alentejana. Os meus horários não me permitem ir regularmente ao ginásio, mas vou aproveitar a hora de almoço para fazer pequenas caminhadas.

As intenções permitem-nos substituir o “tenho de” por “posso”. Posso se me apetecer, se as condições estiverem reunidas, se isso me faz feliz, se houver uma oportunidade. Posso. Não tenho de. Porque a vida já nos envolve em tantas obrigações, que estarmos a impor-nos mais algumas só vai servir para fazer crescer a ansiedade e a sensação de que nunca alcançamos nada de importante. Mas se, ainda assim, quisermos muito fazer uma resolução para o novo ano que aí vem, que seja apenas esta: não sermos tão duros connosco próprios.

Bom ano a todos.

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