Rockeiros de meia idade

No domingo fui assistir àquele que foi provavelmente o meu último concerto dos U2. Digo provavelmente porque, como fã da banda, não garanto que, se eles voltarem a Lisboa, não acabe por cair na tentação de comprar bilhetes mais uma vez, mas confesso que, depois assistir a sete concertos de todas as torneés que eles fizeram este século e ter gasto centenas de euros com isso, gostaria de ficar por aqui.

Bom, honestamente, os sete concertos e o dinheiro gasto não são a única razão para este decisão. Nem a verdadeira.

A verdadeira razão para anunciar a minha reforma de groupie é que aquilo já não é a mesma coisa. Os álbuns recentes não me dizem nada e acabo por ficar ali à espera de ouvir os clássicos, que continuam magníficos e que já tive o privilégio de ouvir  em sete versões diferentes.

A minha falta de entusiasmo talvez se deva à idade. Afinal apaixonei-me por eles aos 14 e já estou perto dos 40. Ou talvez seja precisamente porque o tempo também está a passar por eles e por todos os fãs que assistem aos seus concertos. É que, ao contrário de certos artistas (estou a lembrar-me do Bowie ou do Sting) que andam nisto há décadas, os U2 sofrem do fenómeno dimensão. Foram crescendo e crescendo, de banda rock com influências punk, até ao patamar de super banda comercial, fazendo tournées sempre mais elaboradas e cheias de inovações tecnológicas. No entanto, a sua música está longe de se ter reinventado e readaptado, levando a que os fãs sejam os mesmos há mais ou menos 25 anos. Fiéis, entusiasmados, mas cada vez menos enérgicos.

Nos últimos três concertos a que assisti, vi muito pouca gente com menos de 30 anos. Aliás, no ano passado, em Dublin, fiquei ao lado de pessoas que seguiam a banda desde sempre, ou seja, mais ou menos desde que eu nasci. O que é óptimo para eles (banda e  fãs), mas acaba por fazer com que o glamour, a irreverência, a atitude adolescente com que se entra num concerto de uma banda rock se desvaneça. Isso e o facto de, à saída, ouvir o seguinte diálogo entre um casal que vinha atrás de mim:

– Eh pá, esqueci-me de tomar o comprimido…

-Que comprimido?

-Para amanhã não me doerem as pernas. Foi a Lena que me ensinou o truque.

– Ah, bom, tomas em casa, também não há-de-fazer muita diferença.

– Pois, que isto a idade não perdoa…

-E eu não sei? Todos os dias tomo alguma coisa. Ou é para a dor de estômago, ou para a dor de cabeça, ou para as costas.

 

Pois é. A idade não perdoa. E daqui para a frente, só tem tendência a piorar. Por isso, para que na próxima tournée não saia de lá deprimida, e apesar deste concerto ter sido francamente bom, o melhor é voltar a ouvir os U2 em casa, no leitor de CD’s, a folhear o livrinho da capa, como quando comprei o Achtung Baby e o ouvi em loop durante três dias.

 

 

 

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