
Num futuro não muito distante, um grupo de activistas pelo clima radicaliza-se e decide derrubar o sistema. Dotado de uma eficaz máquina de propaganda, que lhe garante o apoio popular, consegue chegar ao poder e impor uma sociedade totalmente verde. Mas a que preço?
Um romance distópico, que levanta questões incontornáveis, como a emergência climática e a polarização de uma sociedade à deriva.
«São cenas sublimes, (…) “electrizantes”, que garantem que estamos perante uma verdadeira escritora.»
Miguel Real, Jornal de Letras
«É um livro que nos faz pensar e nos suga para uma realidade paralela de onde não conseguimos sair até o terminarmos. »
Luísa Sobral, autora e compositora
«O lado mais cruel do livro é precisamente a verosimilhança com que a autora teceu os cenários, as personagens, os rumos políticos e sociais desta questão tão urgente.»
Célia Correia Loureiro, escritora
PRIMEIRO CAPÍTULO
Depois de entrarem no complexo industrial, os dois homens esperaram pelo sinal escondidos atrás do contentor de entulho, onde a câmara de vigilância não conseguia filmá-los. Do outro lado da estrada, por entre as árvores que formavam uma densa mancha até ao rio, uma lanterna piscou três vezes, avisando que o alvo estava a sair do bloco de escritórios e a dirigir-se para o carro. No instante em que se sentou no lugar do condutor, um dos homens entrou pela porta de trás e tapou- -lhe a boca, enquanto o segundo surgiu do lado do pendura e lhe apontou uma pistola à cabeça. Como previsto, não houve qualquer resistência. O dono da fábrica foi algemado, amordaçado, e saiu do carro obedientemente, seguindo o caminho que lhe foi indicado.
Ainda que a lua estivesse cheia, o seu reflexo não se espelhava na água como prata. Ali, qualquer brilho era absorvido por uma espuma acastanhada, opaca e quase estática, como um campo de neve suja a cobrir toda a superfície do rio. Apavorado, as mãos presas atrás das costas, o homem fitava o manto de espuma e nem reparou que aos dois raptores se tinha juntado um novo elemento, carregando umas caneleiras de pesos, como as que se usam nos ginásios. Era difícil perceber a diferença entre os três, já que todos tinham o cabelo rapado, vestiam fatos-macaco verdes e usavam botas pretas cardadas, mas a estatura do novo elemento, assim como a delicadeza com que lhe prendera as caneleiras de pesos à volta das pernas, deixavam adivinhar que se tratava de uma mulher. «Anda», ordenou uma voz feminina, cravando-lhe o cano de um revólver na nuca. Não sabia como obedecer, já que, se andasse mais um metro que fosse, entraria no rio. Foi nesse instante que percebeu que aquilo não era um assalto.
Os olhos do dono da fábrica encheram-se de lágrimas de angústia e de incompreensão. Não fazia ideia de quem eram aquelas pessoas, nem porque queriam matá-lo. Tentou falar, mas a mordaça impedia que os sons que soltava fossem perceptíveis. Tentou olhar para trás, suplicar pela vida, mas, ao mínimo gesto, o cano do revólver cravava-se-lhe mais contra a pele. Sabia que o rio não era muito profundo, dificilmente ficaria com a cabeça submersa, por isso, provavelmente iam estourar-lhe os miolos e deixar o corpo desaparecer na corrente. Mas porquê? Se fosse por dinheiro, teriam ficado com o relógio ou com a carteira. Talvez fosse um homicídio encomendado. Um ex-sócio? A sua mulher? As lágrimas corriam-lhe pela cara enquanto tentava gritar, esforço inútil. «Continua a andar!», gritou ela assim que se deu conta da sua hesitação. A água do rio dava-lhe agora pela cintura e a espuma aproximava-se do peito. Não ia continuar. Preferia levar um tiro na cabeça. Em desespero, tentou correr para trás, só que o peso das caneleiras fez com se enterrasse cada vez mais no fundo lodoso e deixasse de ver o que quer que fosse, como se, de um momento para o outro, tivesse sido engolido por um ser das profundezas do rio. A espuma ultrapassava a sua altura e entrava-lhe pelos olhos, pela garganta, pelo nariz, impedindo-o de respirar. Por mais que agitasse o corpo para tentar soltar-se, por mais que tentasse gritar, sabia que ia morrer.
Laura deixou-se ficar com o revólver apontado em direcção ao monte de espuma até este parar de oscilar, enquanto um dos seus companheiros acabava de cravar um símbolo numa árvore com um pequeno canivete. Quando a espuma ficou estática, ocultando por completo o corpo do homem, baixou os braços, embora o olhar permanecesse fixado no vazio. «Vamos embora», exclamou Frank, mas ela não conseguia mover-se. «Vá, toca a andar, o espectáculo acabou», insistiu ele, puxando-a pelo braço para que saísse daquele torpor. Caminhou em silêncio atrás dos dois companheiros até ao local onde tinham escondido as bicicletas. Montaram-se nelas e começaram a pedalar, as luzes apagadas, sempre junto à berma, por atalhos longe da estrada principal. Laura só queria chegar a casa. E vomitar.
Aquilo a que Laura chamava casa era um esconderijo num antigo armazém de uma quinta abandonada, base das operações há vários meses, separado em duas áreas distintas: a maior, onde se espalhavam mesas com computadores e ser- vidores próprios, dois sofás e uma cozinha improvisada com algumas tábuas e um fogão de campismo; e uma menor, com vários beliches e um acesso à latrina exterior. A luz era parca, as paredes nuas, e sentia-se no ar um intenso cheiro a humidade.
Laura, Frank e Erik foram recebidos como heróis. Mal abriram o portão enferrujado, os vivas, os abraços de alívio e os cânticos de vitória entoados pelo resto da equipa contrastavam com o que ela sentia. Tentou sorrir, aceitou a cerveja que lhe puseram nas mãos, mas, pouco depois, desculpou-se com o cansaço e fugiu para a sua pequena cama junto à parede da camarata, onde imaginava que estavam coladas fotografias de momentos felizes e outras coisas que nunca poderia exibir. O frio no pescoço e nas orelhas era uma novidade a que ainda não se habituara, procurando em vão os longos cabelos ruivos que já não tinha. Fitou a parede sem tinta, na esperança de que a textura do cimento afastasse a imagem da espuma a engolir o dono da fábrica. Procurava formas nas irregularidades, como se faz com as nuvens quando olhamos o céu. Formas bonitas, que a levassem para longe.
Paolo apareceu pouco depois. Chamou pelo seu nome, mas Laura não se moveu. Sabia que ela não tinha adormecido (ninguém adormece tão depressa após a primeira execução), por isso, sentou-se na beira da cama a olhá-la com ternura. «Laura», chamou de novo, baixinho, e como ela não respondia, deitou-se a seu lado, abraçando-a por trás. Ao sentir-se envolvida pelos braços de Paolo, Laura não conseguiu conter todas as lágrimas que estavam presas desde a margem do rio e começou a chorar compulsivamente. Paolo limitou-se a apertá-la com mais força e a sussurrar repetidamente ao seu ouvido, «vais ficar bem». Quando Laura não tinha mais lágrimas para soltar, ele estendeu-lhe um lenço e beijou-lhe o pescoço.
— Já tenho saudades dos teus cabelos — disse com carinho.
— Vais ter saudades por muito tempo — respondeu Laura, sentando-se na cama para se assoar e limpar o rosto.
— Estás melhor?
— Estou. Foi só a descompressão.
— Laura, falámos sobre isto durante muito tempo. O que hoje começou não pode ser parado. Não há espaço para dúvidas, arrependimentos e, muito menos, sentimentos de culpa.
— Eu sei…
— Amanhã há outro. E depois outro, e depois outro — lem- brou Paolo.
— Certo — respondeu com prontidão, como um soldado que acaba de anuir ao seu comandante.
— Nenhum de nós pode fugir um milímetro que seja do plano. Todos contamos com todos.
Ela sabia. A execução do plano era como uma coreografia ensaiada com precisão até os pés criarem bolhas. Cada passo tinha um tempo, uma sequência, um porquê. Primeiro, identificar empresários sem escrúpulos, juízes corruptos, políticos inconsequentes, e eliminá-los de forma poética, conforme o crime cometido. Depois, bombardear as redes sociais com propaganda que demonstrasse inequivocamente que as Brigadas Verdes eram a única alternativa a um governo medíocre e sem uma estratégia eficaz para atingir as metas necessárias à sobrevivência do seu povo. Um governo que tardava a encontrar resposta para os milhões de desalojados das zonas costeiras em perigo e das zonas rurais onde a água há muito não chegava. Um governo que falava em transição energética, mas que aprovava a construção de novos oleodutos. Os ataques seguintes já estavam em marcha. Cada célula sabia o que tinha de ser feito e estava disposta a tudo para o fazer.
— Podem contar comigo. Só preciso de aprender a encaixar o homicídio na lista de coisas que nunca tinha imaginado fazer…
— Não foi um homicídio.
— Sim, tenho de mudar o chip. Autodefesa, matar ou morrer.
— Precisamente. E quando tiveres dificuldade em fazê-lo, pensa nos teus oito mil coalas.
— Os meus oito mil coalas — lembrou Laura, sorrindo.
— Ah, agora sim, um sorriso! — exclamou Paolo, beijando-lhe os lábios. Depois, olhou-a com um misto de entusiasmo e admiração. — Conseguiste, Laura!
— Conseguimos, Paolo. Nada nos vai parar.
Beijaram-se apaixonadamente, as mãos a deslizarem pelo corpo um do outro, as línguas a percorrerem os pescoços, os fatos-macaco verdes despidos com urgência, sexo selvagem, como se fosse a última vez, agora que cada vez poderia mesmo sê-lo. Nem se preocuparam em trancar a porta. Os outros sabiam quando não entrar.
Mais tarde, sem conseguir pregar olho, fixando novamente a parede cinzenta, Laura recordou como surgira a ideia que os levara até ali. Conseguia ver a sala insonorizada de um estúdio de gravação abandonado, onde decorrera mais uma reunião clandestina para preparar os ataques, a primeira para ela, a enésima para os restantes. Estavam lá o Paolo, o Frank, o Erik, mas também o Luc, a Maria, o Carlos, a Karen e o Miguel. Lembrava-se vivamente de se ter sentido alarmada quando soube que Luc fora membro da Frente de Libertação da Terra, um grupo considerado terrorista, responsável por inúmeros ataques e actos de sabotagem. Ou de ouvir Maria assumir bem alto que, pela sua experiência enquanto ex-membro das secretas, considerava que Laura não tinha perfil para o que estavam a preparar e que iria ceder assim que fosse interrogada pela primeira vez. Ou de ter achado Carlos demasiado imaturo para liderar a célula dos explosivos. Lembrava-se vivamente de ter ido à casa de banho do estúdio molhar a cara com água fria e de se ter perguntado se seria assim que os soldados se sentiam quando partiam para a guerra. Tinha de ter uma confiança cega nas pessoas que estariam ao seu lado, todavia, não as conhecia e, para algumas delas, parecia que não era bem-vinda. Como saber se cumpririam o seu papel? Como saber se todos estavam realmente dispostos a dar a vida pela causa, mas também uns pelos outros?
Lembrava-se ainda de saltar entre o orgulho de fazer parte de algo nobre e a culpa de matar alguém. Sim, várias vidas seriam ceifadas sem dó nem piedade durante a Revolução, e Laura questionava-se, então como agora, se a vida humana seria mais valiosa do que a vida de qualquer outra espécie aniquilada diariamente devido às acções dos homens. Na altura, decidira que não. Decidira que chegava de desculpas e adiamentos, acordos e conferências onde os intervenientes falavam e falavam, mas não levavam a cabo as mudanças concretas e necessárias para a salvação de milhões de vidas. Chegava de petições, marchas, invasões de conselhos de ministros, vandalização de obras de arte, greves de fome e cadeados em fábricas. Decidira ficar com o grupo contra a hipocrisia de quem se dizia preocupado com o assunto, mas não se desviava um milímetro de um estilo de vida consumista e suicida, mesmo perante as notícias diárias de secas históricas, furacões descontrolados e incêndios selvagens, como aquele que, na Austrália, tinha dizimado oito mil coalas e outros cento e quarenta milhões de animais. Cento e quarenta milhões! Não havia outra maneira. Chegara a hora de matar os culpados, todos eles, um por um, por mais poderosos que pudessem parecer, até que se desse uma verdadeira mudança. Até que todos os governos percebessem que não havia tempo para adaptações lentas que não incomodassem os lobbies. A mudança era urgente. A mudança era agora. Porque a única civilização possível é aquela que vive em comunhão com a Natureza.
Ensaiou mentalmente o discurso que iria gravar dentro de dias, o qual seria divulgado em todas as emissoras de televisão, rádio e redes sociais quando chegassem à sétima execução. O objectivo era incitar o povo a marchar nas ruas, exigindo a queda imediata do governo.
(Olhos na câmara, doces, mas assertivos.) Caros concidadãos, mais um criminoso perdeu a vida hoje devido aos seus atentados contra o nosso planeta. Um assassino que, todos os dias, desprezando os pedidos desesperados da população, arris- cava a vida de todos em nome do capital. Não restam dúvidas de que foi justamente castigado. (Pausa e gesto de prece.) Este foi o sétimo acto de libertação das Brigadas Verdes, um movimento revolucionário pela salvação do povo e da Natureza. Muito tem sido divulgado nas redes sociais acerca da nossa origem e propósito, mas estou aqui para vos dizer que não nos move uma ideologia, religião ou interesse económico. Não somos financiados por nenhuma corporação. Somos um grupo de cidadãos em luta pela sobrevivência da nossa espécie e de todas as outras, que partilham connosco este maravilhoso planeta em agonia e das quais também dependemos. (Pausa e leve sorriso.) Iniciámos um caminho sem retorno, matar quem nos mata, com perfeita consciência de que é uma guerra. Uma guerra pela vida, por mais paradoxal que possa parecer. Como em qualquer guerra, sabemos que há dois lados. Hoje podem escolher o vosso. (Pausa dramática.) Quem estiver connosco, a lutar pela vida e pelo futuro de todos, nada deve temer. Estará protegido, estará do lado do bem. (Sorriso tranquilizador.) Quem nos tentar deter com o intuito de perpetuar um modo de vida insustentável, em que a ganância e a corrupção se sobrepõem a tudo, vai continuar a ser perseguido, torturado e morto sem misericórdia, até não restar nenhum de vós. Isto não é um aviso. A guerra já começou. (Olhar confiante para a câmara. Abertura de plano revelando Paolo e o Luc ao meu lado. Fim de emissão.)
Relembrar cada uma destas palavras ajudou-a, por fim, a adormecer. A angústia fora substituída por um enorme orgulho de fazer parte do lado bom da história. Sonhou que estava com Billie e Max na Casa do Lago.

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