A brincar aos ricos

Eu sei que não devia ver notícias. Juro que evito telejornais e tento fazer uma leitura crítica de tudo o que me chega às mãos, protegendo-me de preocupações infundadas e pensamentos depressivos. No entanto, mesmo usando todos os filtros, o que me chega é o retrato de um país à beira do abismo e a apatia generalizada dos portugueses para com o estado da nação. Para alívio de quem nos governa, andamos tão distraídos com as inúmeras solicitações das redes sociais, as quais nos vão moldando o pensamento com puro entretenimento, escândalos de celebridades, “fake news” e o incentivo ao narcisismo, que até nos esquecemos que vivemos num país pobre e atrasado, há trinta e dois anos na cauda da Europa.

Senão, vejamos. As três maiores preocupações de qualquer ser humano são a saúde, a segurança e a educação. Só com essas três necessidades básicas preenchidas consegue trabalhar, prosperar e contribuir para a sociedade. Mas são exactamente essas três necessidades básicas que os sucessivos governos do nosso país (e este em especial) ignoram consecutivamente, preocupando-se apenas com défices, números e investimentos públicos mediáticos.

Na Saúde temos: crianças com cancro a receber tratamento em contentores; listas de espera de meses para consultas, operações e exames, que resultam em mortes por falta de cuidados básicos; enfermeiros a serem tratados como pessoal médico de segunda há décadas; milhares de pessoas sem médico de família; hospitais com equipamentos da idade da pedra; médicos a fazerem trabalho administrativo em programas informáticos complicados em vez de atenderem os utentes (ao mesmo tempo que se reduz o pessoal administrativo); directores clínicos a demitirem-se em bloco, enfim, o colapso do Sistema Nacional de Saúde.

Na segurança temos: polícias a ganhar pouco mais que o ordenado mínimo e a andarem em viaturas com mais de vinte anos em estado próprio para abate, mas que passam miraculosamente nas inspecções; polícias sem meios para agir em caso de ocorrências; bombeiros sapadores a terem de ir para a rua contra o absurdo de aumentar a idade de reforma e pagar 600 euros aos que estão a começar, como se alguém fosse colocar a vida em perigo por 600 euros (mas depois há imensos agradecimentos e lágrimas na época dos incêndios); pontes que caem e não é culpa de ninguém; transportes públicos a trabalharem à base remendos e de peças retiradas de umas carruagens para as outras até ao dia em que houver um acidente grave; falta dramática de pessoal no SEF durante uma das maiores crises migratórias.

Na educação temos: escolas onde chove nas salas e onde as crianças estão nas aulas de luvas e mantas; escolas com telhados de amianto e sem espaços lúdico/desportivos; professores com carreiras congeladas há dez anos; uma classe docente muito envelhecida e desgastada; desprezo pela língua e pela leitura; planos curriculares e métodos de ensino obsoletos, que fazem com que as crianças abominem as aulas, desvalorizem o conhecimento e sonhem em ser influencers digitais, porque, com sorte, ganharão mais do que como licenciados.

Temos tudo isto e muito mais.

O Governo queixa-se de que não há dinheiro para tudo, o que é compreensível, claro. Qualquer pessoa com bom senso sabe que não se consegue fazer tudo de uma vez e que as reformas não acontecem de um dia para o outro.

Não há dinheiro para tudo, dizem eles, mas em 2016 houve 4,9 mil milhões de euros para recapitalizar a Caixa Geral de Depósitos, cujo buraco, comprova-se agora, foi provocado por má gestão e por financiamentos ruinosos aos Berardos, aos Mellos e aos Amorins da vida.

Não há dinheiro para tudo, gritam eles, mas há bónus para os administradores de empresas públicas, mesmo em anos de prejuízos. E para pagar três mil euros por mês aos assistentes de secretários de Estado. E respectivo motorista. Sim, porque além dos ministros e secretários de estado, também os assistentes de secretários de Estado têm motorista à disposição.

Não há dinheiro para tudo, garantem eles, mas há dinheiro para as viagens e as ajudas de custo aos deputados que inventam que vivem fora de Lisboa. E para reformas acumuladas e tantas outras benesses, que todos dizem achar mal, mas poucos se dignam a rejeitar.

Não há dinheiro para tudo, defendem eles… Mas então, se não há dinheiro para assegurar as necessidades básicas de um povo, como a saúde, a segurança e a educação, isso não significa que somos um país pobre a brincar aos ricos?

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