Da falta de… nem sei

Que a sociedade está cada vez mais alienada e pouco civilizada já eu sabia. Basta por um pé na rua para continuar a ver pessoas a deitar lixo para o chão, a cuspir sem cerimónia quer muco quer asneiras, a não segurar as portas quando alguém vai passar, já para não falar do cada vez mais raro que é ouvir as palavras bom dia ou obrigada. Cada um vive no seu casulo (caverna talvez seja o termo apropriado) e não é de estranhar que não haja qualquer interacção ou simpatia para com um estranho, quando muitas vezes também não a há para com elementos da sua própria família (tribo talvez seja, mais uma vez, o termo apropriado).
Ainda assim (chamem-me ingénua!), gosto de acreditar que é possível construir um mundo melhor, que é possível educar os grunhos, que o ser humano tem capacidade para ser solidário, amável ou simplesmente cordial. Sim, gosto de acreditar, embora seja cada vez mais difícil manter esta crença e o último mês, com a crise dos refugiados, tenha sido fértil em momentos que aniquilam a esperança de qualquer um na espécie humana. E se já é difícil conviver com a indiferença ou com a falta de … humanidade? entreajuda? nem sei qual a palavra certa, quando os problemas são dos outros, é ainda mais complicado lidar com isso quando os problemas são nossos.
Então, prestem atenção a este ilustrativo episódio que se passou comigo ontem:
Fim de tarde, saio com as crias para um passeio no parque. Cria mais velha (três anos e meio) vai na sua bicicleta e cria mais nova (18 meses) vai no seu triciclo. Estão várias pessoas à porta de cada estabelecimento comercial da rua onde vivemos e algumas até sorriem para as crianças. Dobramos a esquina e eis que a cria mais nova se estatela no meio da calçada, batendo com a cara em cheio no chão. O meu coração pára e a primeira coisa que me passa pela cabeça é que partiu o nariz ou a abriu um lenho na testa. Levanto-a do chão e vejo que não foi isso. Cria chora e tem a boca cheia de sangue. Penso que partiu os dentes, mas com o dedo percebo que estão todos lá. Temos de voltar já para casa, lavar-lhe a boca, estancar o sangue, pôr gelo. Pego na cria mais nova ao colo com um braço, enquanto carrego o triciclo no outro e imploro à cria mais velha para vir atrás de mim.
Quando dobro novamente a esquina, para a rua onde várias pessoas, homens e mulheres, novos e velhos, continuam a conversar ou a fumar à porta dos estabelecimentos comerciais, a cria mais nova chora desalmadamente com a boca e as mãos cobertas de sangue, enquanto que a cria mais velha chora porque não percebe porque é que já não vamos ao parque. Eu tento correr até à minha porta, cria num braço, triciclo no outro, mancha vermelha no meu casaco, “a mana tem sangue” grita a cria mais velha, toda a gente a olhar para nós mas… ninguém, absolutamente ninguém se mexeu. Repito: cria de 18 meses com a boca cheia de sangue, cria de três anos a chorar atrás de mim, eu a pedir “por favor Tiago, vem atrás da mamã, a mana magoou-se mesmo” e NINGUÉM ofereceu ajuda! Ninguém esboçou o mínimo gesto de auxílio, pegar no triciclo para que eu conseguisse carregar a miúda, oferecer uma garrafa de água, um lenço de papel, NADA!
Conclusão: se ninguém se comove com uma mãe com um bebé ensanguentado nos braços e um menino de 3 anos atrás dela a chorar, então a humanidade está perdida e o fim do mundo está próximo.

Nota: A cria mais nova está bem. Foi apenas o lábio superior que sangrou, mas parou logo assim que lavámos com água fria. Parece que pôs Botox, mas tirando isso, está maravilhosa.

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