Lamento

Depois de arrumar os carrinhos dentro da caixa dos brinquedos pela décima vez naquele dia, a mulher sentou-se na cadeira da cozinha a chorar. Não eram apenas lágrimas de saudade. Era raiva, era medo, era um aperto no coração, era não ter ninguém que a abraçasse e disse-se “pronto, já passou”, como ela fazia ao filho quando ele se magoava.

Ninguém lhe dissera que ia ser assim tão difícil. Ninguém a avisara de que era exactamente nas pequenas coisas do quotidiano, tão pequenas como arrumar os carrinhos numa caixa, que ia sentir mais a sua falta. Não no dia de Natal, não na festa da escola, não nas tardes de domingo no sofá, mas ali, naqueles pedaços de vida. Lavar a loiça, pôr a roupa na máquina, escolher um filme para ver ao serão, consertar a lâmpada do candeeiro do quarto, aquele que compraram na feira da ladra e que sempre fez mau contacto, a passagem pela mercearia antes de vir para casa porque não há cebolas, verificar o ar, a água , o óleo do carro, puxar o fecho do vestido, lembrar que o telemóvel ficou na mesinha de cabeceira, tomar o pequeno almoço juntos, passas-me o leite, se faz favor?, ajudar a enfiar o edredão dentro da capa, fazer a papa do miúdo, dar papa ao miúdo, mudar a fralda do miúdo, pedaços de vida.

Porque o Natal é um momento que passa, o aniversário é um dia que acaba, mas as tarefas comuns não passam nem acabam. Estão lá todos os dias para nos lembrar que a vida continua. E a mulher chorava, porque não queria que a vida continuasse. Não desta maneira.

O plano não era casar, ter um filho e ficar sozinha. Faltavam os outros filhos e as férias de Verão e vê-los crescer, juntos, e ensinar-lhes a serem boas pessoas, mas com ambição, que o mundo não se compadece com os bonzinhos, e ensinar-lhes a serem educados, mesmo perante a má-educação, e vê-los tornarem-se adultos, juntos, e envelhecer de mãos dadas, juntos. Era esse o plano. E agora? Quem é que ia ensinar o miúdo a andar de bicicleta? Quem é que ia levá-lo aos treinos de futebol? Quem é que ia construir pistas imaginárias para os malditos carrinhos? Quem é que ia explicar onde é que estava o papá? E a mulher chorava porque não queria ter de explicar.

Os amigos, cada vez mais ausentes, porque ninguém gosta de ser confrontado com a tristeza, nem de sentir aquele tipo de pena que não se consegue disfarçar, sempre a perguntarem “como é que estás?”. A mulher cada vez mais só, com vontade de responder, estou viva, a lutar para conseguir sair da cama todos os dias, porque tenho um filho que precisa de mim. E a mulher chorava porque não queria estar viva, embora também não quisesse estar morta. Queria apenas que tudo voltasse a ser como antes. E então chorava ainda mais porque sabia que nada seria como antes.

O peito molhado, os dedos enrolados no pano da loiça e a memória de todas vezes que não lhe disse que o amava, de todas as vezes que não lhe disse que não sabia viver sem ele, de todas as vezes que o chateou por deixar a roupa espalhada no chão, quando tudo o queria agora era poder ter a roupa dele espalhada no chão, muita roupa, todos os dias. E a mulher chorava porque já não havia roupa, nem no chão, nem nas gavetas, nem nos armários.

Até que o filho choramingou, lá ao longe, no quarto, a chucha caiu, está tudo bem, mais um pedaço da vida que continua, indiferente à sua dor. E a mulher chorava, em silêncio, noite após noite, na cadeira da cozinha, porque sabia que essa dor nunca iria passar.

Conto originalmente publicado na plataforma Maria Capaz

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