É impossível ter a casa (e a roupa) limpa

Há uns anos li uma frase do comediante Jerry Seinfeld que dizia algo como ” ter uma criança de dois anos em casa é como usar um liquidificador sem tampa”. Na altura achei a frase divertidíssima, mas só hoje a entendo na perfeição. É que, de facto, a não ser que tenhamos uma empregada interna, daquelas como nos filmes, que ficam lá a dormir e tudo, é humanamente impossível manter a casa limpa e arrumada quando se tem filhos menores de seis anos (que os outros já têm idade para limpar muito do que sujaram e arrumar os brinquedos antes de ir para a cama).
Se acabámos de passar a esfregona no chão, eles entram pela divisão adentro e espezinham tudo; se acabámos de aspirar eles vão comer bolachas; se mudámos os lençóis de manhã, eles fazem chichi na cama à noite; se vestimos uma camisola nova, eles vêm dar-nos um abraço com as mãos pegajosas; se acabámos de pôr os Legos todos na caixa, eles despejam o cesto dos puzzles. Acreditem, é como uma daquelas leis de Murphy.
Assim, uma mãe (e um pai, que hoje em dia já costumam ajudar nas tarefas domésticas), tem duas opções:
1) virar Mãezilla e desatar aos gritos todas as noites, sobretudo por altura das refeições, passando o serão a limpar, a arrumar e a procurar a única peça de roupa que não tem bocados de comida incrustada, para poder vestir na reunião da manhã seguinte.
2) desistir e interiorizar o ditado “se não os podes vencer, junta-te a eles”, abraçando a desarrumação como um estado natural e repetindo mentalmente aquele famoso slogan do Skip “é bom sujar-se”, nomeadamente quando os colegas repararem que temos um bocado de banana esmagada nas calças.
Como a única satisfação que se pode retirar da primeira hipótese é poder contemplar a casa toda arrumadinha nos minutos que antecedem a nossa queda na cama, já que, na manhã seguinte, o caos recomeça em todo o seu esplendor por altura da primeira papa do dia e ninguém deixa de ser promovido por ter uma nódoa na camisa, optei pela segunda, para escândalo da minha família, que ainda por cima sofre de “arrumadismo” agudo. Bem vejo os seus olhares horrorizados quando entram na sala de estar, agora convertida em parque de diversões do pequeno T. Oferecem-se discretamente para ajudar, para varrer, para apanhar os brinquedos do chão, e eu agradeço e deixo-os sentirem-se úteis, embora saiba que, assim que eles saírem, o meu terrorista vai minar tudo em três tempos e eu vou fechar os olhos às dedadas nas portas, respirar fundo e perceber que, na verdade, prefiro estar ali com ele a espalhar cubos pelo chão, do que na cozinha agarrada aos instrumentos de limpeza. Não é fácil, vai contra o meu instinto, mas é a única maneira de sobreviver aos primeiros anos de uma criança. 
E se, de repente, aparecerem visitas ou tiver de chamar um médico ao domicílio e a parede ainda estiver salpicada de sopa (sim, há pratos que voam das cadeirinhas em dois segundos), em vez de baixar a cabeça envergonhada perguntando a mim própria “o que é que vão pensar de mim”, vou sorrir e deixar que os meus olhos digam “desculpe a desarrumação, mas nós vivemos aqui”.

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