Ficheiros Secretos

Há uma coisa que me tem tirado o sono nos últimos tempos e que, neste momento, se está a transformar em revolta: os ficheiros Epstein. Pode haver quem ache que não é caso para tanto, que isto é algo que só diz respeito aos americanos, sobretudo aos que elegeram um presidente corrupto e pedófilo, que tem andado a fazer malabarismos para desviar a atenção do assunto. Só que não. Os ficheiros Epstein não são só sobre a América. São sobre a decadência de uma sociedade em que os homens ricos e poderosos podem fazer o que quiserem, a quem quiserem, à vista de toda a gente, sem nunca serem punidos.

Para quem não está a par, ou tem a atenção desviada pelo algoritmo controlado por alguns dos visados, os Ficheiros Epstein são um conjunto de documentos judiciais, depoimentos de vítimas e emails ligados a Jeffrey Epstein, um financeiro norte-americano acusado de liderar uma rede de tráfico sexual de menores durante décadas, cujos clientes incluíam políticos, empresários, membros da realeza e figuras públicas de enorme renome, que participavam em festas privadas onde meninas e mulheres eram parte do menu. (Nos últimos documentos libertados , há menção a uma menina de nove anos. NOVE.) Epstein, que já tinha sido acusado em 2008, foi finalmente preso em 2019 e acusado de exploração sexual e conspiração, mas morreu na prisão nas vésperas do julgamento, naquilo que foi oficialmente considerado suicídio. Curiosamente, no vídeo de segurança da prisão que filma a porta da sua cela à hora provável da sua morte, desapareceu um minuto e dezoito segundos. Mas pronto, vamos fingir acreditar que um homem que conhecia todos os podres de todos os poderosos, guardava os e-mails e fotografias dos seus clientes e vítimas só para se divertir e, quando chegou o momento da verdade, preferiu proteger os compinchas com a própria vida. Que nobre.

Desde a sua morte, tem havido diversos pedidos e processos civis para que os ficheiros possam ser divulgados, de forma a que se conheça a lista de clientes, os testemunhos das vítimas e se consiga ir atrás de quem cometeu crimes. A administração de Biden andou a marcar passo durante os quatro anos que esteve no poder, e não libertou os ficheiros (afinal, são os ricos e poderosos que financiam os políticos, não é?) e a administração Trump, cujo nome aparece mais vezes nos ficheiros do que Jesus na Bíblia, tem feito de tudo para que o assunto seja esquecido. Quando o Departamento de Justiça foi, finalmente, obrigado a libertar os ficheiros, estes começaram a ser divulgados aos poucos, com os nomes dos abusadores censurados, mas os de algumas vítimas que têm falado publicamente sobre o assunto a descoberto, bem como as suas moradas, emails e outras informações privadas. Dos 9 milhões de documentos que constam no processo, só cerca de 3 milhões foram libertados, os últimos dos quais fora do prazo legal.

No meio disto tudo, a única pessoa que foi presa até agora foi Ghislaine Maxwell, namorada de Epstein, que angariava as meninas que eram abusadas nas festas milionárias. No verão de 2025 mostrou-se disposta a falar do caso em troca de perdão. Semanas depois, foi transferida para uma prisão com melhores condições e não abriu mais a boca. Trump ainda não negou se estaria disposto a conceder-lhe uma amnistia.

Mas não é só a sordidez de todo o caso, nem as tentativas de manipulação da opinião pública que me revoltam. Afinal, estudei aprofundadamente na faculdade a sociologia da comunicação, o poder dos Media, a propaganda. Não são inéditos os escândalos que envolvem abusos sexuais de menores ou de maiores por parte de pessoas ricas e poderosas, nem os respectivos encobrimentos. O que me revolta é que durante mais de 20 anos estas mulheres e crianças foram ignoradas, subornadas e desacreditadas. E, sobretudo, saber que sempre que uma mulher acusa um homem poderoso, seja o presidente de uma das maiores potências mundiais ou um mero candidato presidencial (não esqueçamos o recente caso do Cotrim Figueiredo), seja o CEO de uma empresa ou um jogador de futebol, é sempre questionada, humilhada, abandonada, apesar de as estatísticas mostrarem que mais de 95% das acusações de abuso acabam por se provar verdadeiras.

Neste caso concreto, como é que não há ninguém, entre as várias pessoas que tiveram acesso ao processo ao longo dos anos, que tiveram os ficheiros nas mãos, polícia, FBI, Departamento de Justiça, uma única alma que tenha a coragem de falar, de revelar os nomes que aparecem censurados? Como é que conseguem dormir? Como é que conseguem olhar-se ao espelho, sentar-se com as suas filhas à mesa e fingir que está tudo bem? Meninas de 9, 10, 11, 12, 13 anos foram violadas. Mulheres foram traficadas. Não são só americanos que estão nos ficheiros. Porquê tanta apatia?

Que sociedade é esta, que normalizou o poder do dinheiro para comprar tudo e todos, como se vivêssemos num episódio do Squid Game, em que qualquer tipo de atrocidade pode ser praticado por quem se acha intocável? Que sociedade é esta que está tão adormecida, anestesiada, amestrada, que tem medo de derrubar um bando de homens velhos e patéticos abusadores de mulheres e de menores?

A primeira arma dos governos tirânicos é instalar o medo. E quando uma sociedade inteira tem medo de falar, já não é uma sociedade. É um aglomerado de pagadores de impostos para alimentar o status quo.

Nota final: fiz duas perguntas ao Chat GPT sobre o caso Epstein, porque não estava a encontrar a fonte que procurava no Google. À segunda pergunta, que era apenas para saber o nome da cúmplice, deixou de responder dizendo que o conteúdo viola a política de utilização. Sam Altman, dono na Open IA, é um dos grandes beneficiários das políticas de Trump para o sector.