O gato Gucci surgiu na minha vida numa das fases mais felizes. Tinha-me casado há pouco tempo, ainda gostava de ser publicitária, e estava a escrever o meu primeiro romance. Como morava perto da agência, ia almoçar a casa para brincar com ele e verificar se tinha arranhado algum sofá. (Nunca estragou nada.) Conversávamos muito e trocávamos carinhos.
O gato Gucci era a minha sombra e, como todos os gatos, adorava sentar-se em cima do computador, ou passar por cima das minhas mãos, cheirando as teclas com natural curiosidade, até se aconchegar no local que mais lhe convinha, mesmo que não me conviesse. Adorava livros, sobretudo coçar as bochechas nos seus cantos aguçados. Por isso, decidi incluí-lo na fotografia da badana do meu primeiro livro e nas biografias de muitos dos seguintes.
O gato Gucci não sabia miar, ou talvez não quisesse. Abria a boca, mas só saíam uns estalidos. Sei que não era mudo, porque, emitia vários sons, mas nunca um miado. Preferia comunicar com os olhos e com a cauda. Olhos doces e meigos.
Por não saber miar, não me apercebi quando, certa vez, caiu da varanda do quarto andar e se escondeu debaixo de um carro à porta do meu prédio. Era uma noite de sábado, eu estava grávida do meu primeiro filho, descansada no sofá, a achar que ele tinha saído para visitar as varandas dos vizinhos, como era seu costume, já que estes até lhe davam comida e mimos. De repente, a campainha tocou e um senhor perguntou se eu tinha um gato, pois vira o coitado aterrar em cima do capô de um carro. Não partiu nada. Só gastou uma das suas nove vidas.
O gato Gucci sempre gostou de se deitar em cima de mim. Primeiro “amassava” o lugar escolhido, enquanto ronronava e me olhava nos olhos, como quem diz gosto de ti. Durante as minhas duas gravidezes, ainda gostava mais deste ritual. Talvez conseguisse ouvir os bebés que se formavam na minha barriga.
O gato Gucci ficava a olhar para os meus recém-nascidos com curiosidade e sentido de responsabilidade. Desde que os meus filhos nasceram, escolheu o berço como nova cama. Não tinha ciúmes, e fugia assim que começava a gritaria. O Tiago chamava-lhe Pté-pté.
Infelizmente, a minha segunda gravidez, espoletou uma alergia a gatos que eu nunca tinha tido. Só de escová-lo ficava com as palmas das mãos e os antebraços vermelhos e com prurido. Foi então que, na segunda metade da sua vida, o gato Gucci foi viver com os avós, isto é, os meus pais.
Era uma casa enorme, com um jardim que se estendia para lá dos muros, e onde viviam duas gatas (a mãe e a irmã dele) e um cão que adorava gatos. Acho que não se importou muito com a mudança, até porque, quando aconteceu, os meus filhos tinham um e três anos, fase em que faziam demasiado barulho para os seus ouvidos sensíveis. Além de que gostavam de o apertar com demasiada força ou de pôr os dedos nos olhos. Ele olhava-os com enfado e fugia para outro lugar, como o irmão mais velho adolescente que só quer ficar sozinho. Depois da mudança, sempre que eu entrava na casa dos meus pais, recebia-me com carinho e com os ronrons do costume.
O gato Gucci foi sempre dócil e delicado para conhecidos e desconhecidos. Era sereno e bem-comportado. Ascendeu há dias ao céu dos gatos, após dezasseis anos de uma vida feliz.

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