Acabei de chegar do festival Utopia, em Braga e venho de coração cheio. Não apenas por ter tido a sala cheia nas duas sessões em que participei, mas sobretudo por ter visto as salas cheias em várias sessões, apesar da chuva insistente e do tempo que pedia um sofá e uma manta.
A organização foi excelente, o programa muito diversificado, tantas mulheres quantos homens nos vários painéis e iniciativas, e para mim pessoalmente, foi uma experiência única, uma vez que pude privar com pessoas incríveis entre escritores de renome, filósofos e alguns jornalistas (os menos snobs, claro).
Mas o que mais me surpreendeu foi perceber que os principais patrocinadores eram empresas privadas, de sectores muito distantes da Literatura, nomeadamente a F3M, empresa tecnológica onde dei uma palestra sobre o processo criativo, e o grupo DST, que está ligado principalmente à engenharia. Conheci os donos de ambas, homens incríveis com uma visão pouco comum sobre a importância dos livros no bem-estar dos indivíduos. Só para começar, além de patrocinarem um festival literário, são empresas que têm bibliotecas para os funcionários. Acho que não é preciso dizer muito mais.
Como trabalhei durante muitos anos numa agência de publicidade, a qual, embora parte de uma indústria criativa, fazia as pessoas picarem o ponto e nem anuários de publicidade tinha nas estantes vazias que apenas serviam para demarcar zonas de circulação, fico comovida com estas coisas. Mais: a DST oferece sempre um livro aos funcionários quando fazem anos e tem aulas de filosofia gratuitas nas instalações. Também financia um prémio literário há 25 anos.
Num país com péssimos índices de leitura, cujo orçamento para a Cultura é insignificante e onde os autores portugueses aparecem em terceiro plano em qualquer livraria, é bom ver que há quem nos estime e nos queira por perto.
Obrigada à Book Company por ter organizado este festival, à cidade de Braga por o ter acolhido e a todos os patrocinadores e espectadores que passaram pelas várias iniciativas do Utopia, provando que, ao contrário do que se possa pensar neste país que se alimenta a futebol e telenovelas, as pessoas gostam de eventos culturais e têm curiosidade em ouvir falar desta coisa maravilhosa que é o livro.

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