Deixamos de ter nome

O nome. Antropónimo. O nosso primeiro vínculo com o mundo. A confirmação da nossa existência. Parte inseparável da nossa identidade, tantas vezes influenciadora do carácter do denominado. Sim, o nome. Esse que deixa de existir a partir da concepção.

Tudo começa nas consultas de obstetrícia. “Olá Mãe”, “sente-se aqui, Mãe”, “o seu livrinho, Mãe”, “está de quantas semanas, Mãe?”. Das enfermeiras às auxiliares, não há quem se lembre de usar o nosso nome. Também há amigos e familiares que, de forma carinhosa, começam a chamar-nos Mamã por tudo e por nada. Até aqui tudo bem. No meio de tanta felicidade, a antecipação dessa nova faceta na nossa vida acaba por nos enternecer. Só que o caso muda de figura quando as crianças nascem. A partir desse momento, quer se goste, quer não, do senhor do café, à dona da mercearia, todos ficam com amnésia e passam a referir-se a nós como “a Mãe de”, com a maior das naturalidades e sem que possamos ripostar. Pior: há maridos que começam a fazê-lo. Senhores, por favor, não façam isso. A sério, deixem esse tratamento para a vossa mãezinha, a bem de uma vida sexual saudável.

Adiante! À medida que as crianças começam a socializar, seja no infantário, seja no parque lá do bairro, a coisa só piora. Dá um beijinho à Mãe do António, Diz adeus à mãe da Sofia, Boa tarde, daqui fala a Mãe do Nuno, Queres ir ao cinema com a Mãe da Rita?, até que, por fim, somos nós próprias que nos alheamos na nossa identidade, acabando por proferir a torto e a direito um “Olá, sou a Mãe do Tiago e da Carlota”.

E se a coisa se passa assim quando estamos a conversar cara a cara, quando nos olham nos olhos e vêem efectivamente quem somos para lá do nosso papel de progenitora, nem queiram saber o suplício que se pode tornar uma simples conversa telefónica. Passo a transcrever o último telefonema com a costureira onde costumo por as roupas a arranjar:

– Boa tarde dona Estefânia, daqui fala a Filipa.
– Ah, que Filipa?
– Filipa Silva
– Não estou a ver…
– A Filipa, da bicicleta
(silêncio do outro lado)
– A Filipa, estive aí no outro dia com um vestido branco para apertar, lembra-se?
– Ah sim, loura, não é?
– Não dona Estefânia, morena, baixinha… A Filipa, a mãe do Tiago e da Carlota!
– Ah! Claro! Filipinha, como vai? E o Tiaguinho como está? Não o vejo há tanto tempo…e a menina? blá, blá, blá, blá, blá, blá…

E pronto, andamos décadas a construir a nossa identidade, pelo estilo de vida, pelo aspecto físico, pela ocupação, pelos lugares que frequentamos, pelos livros que lemos, pela música que ouvimos, para num instante ficarmos reduzidas a isto. Ou aumentadas. Sim, deixamos de ter nome, mas ser “A Mãe” de alguém, no fundo, no fundo, compensa largamente a perda momentânea da nossa individualidade.

Texto originalmente publicado no livro Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)

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